Mostrar mensagens com a etiqueta energia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta energia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de maio de 2012

A poupança da vergonha

Na sequência do artigo Envergonhar as empresas de energia, vários leitores afirmaram terem metido mãos à obra, no sentido de utilizarem a técnica da Troika (que está de volta a Portugal) de envergonhar as empresas de energia.

De todos os leitores, o que afirmou ter efectuado a maior poupança, deu-me feedback um pouco mais de um mês depois de ter efectuado o pedido. E ele não se ficou por casa; fez os seguintes downgrades de potência:
  • Casa: 6,9 Kva para 3,45 Kva
  • Escritório: 6,9 Kva para 3,45 Kva
  • Local de trabalho 1: 20,7 para 10,35 Kva
  • Local de trabalho 2: 20,7 para 13,8 Kva

O leitor fez ainda as contas da poupança, que partilhamos com os leitores:
  • Potencia anterior mensal: 78.42€ + IVA
  • Potencia actual mensal: 45,11€ + IVA
  • Poupança mensal: 33,31€ + IVA

Ou seja, com uma alteração que praticamente não lhe custou nada (um bocado de tempo, mas pode ser efectuada via Net, e a EDP normalmente aparece nos dias seguintes), o leitor passará a deixar de enriquecer a EDP em cerca de 400 euros/ano! Adicionalmente, deixará de pagar anualmente ao Estado cerca de 13 euros, correspondente ao IVA de casa, dado que o IVA do escritório e locais de trabalho pode ser deduzido. E conseguiu fazê-lo sem que o disjuntor disparasse...

A atitude deste e dos outros leitores (e que também deverá equacionar) tem ainda o benefício acrescido de deixar de fazer sentido o investimento em mais potência instalada. Tal é bastante importante, porque como já vimos neste e naquele artigo, já temos potência a mais, e isto pode ser assim um incentivo para que se deixe de investir em mais potência instalada, nomeadamente eólica, como sugerimos nos comentários do PNAER/PNAEE.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Medo do Monstro!

O Governo divulgou hoje uns cortezinhos nos custos do sistema eléctrico. Segundo as notícias, o corte permitirá poupar cerca de 1800 milhões de euros até 2020. Segundo esta outra notícia, a distribuição de cortes, entre 2012 e 2020, será a seguinte:
  • Cogeração: 700 M€
  • Garantia de Potência: 335 M€
  • Mini-hídricas: 300 M€
  • CMEC e CAE: 280 a 300 M€
  • Eólicas: 100 a 200 M€

Agora, confronte-se isto com o que a ERSE definiu como Custos de política energética, ambiental ou de interesse económico geral e de sustentabilidade de mercados incluídos nas tarifas para 2012 (pag. 29 e 33), apenas para 2012:
  • Sobrecusto da PRE: 1295 M€
    • Sobrecusto das eólicas: 538 M€
    • Sobrecusto da cogeração "fóssil": 428 M€
    • Sobrecusto da cogeração FER: 107 M€
    • Sobrecusto da PRE fotovoltaica: 59 M€
    • Sobrecusto da PRE hídrica: 56 M€
  • CMEC: 296 M€
  • Sobrecusto CAE: 134 M€
  • Garantia de Potência: 60 M€

Por aqui facilmente se percebe que isto são apenas cortezinhos! No maior sobrecusto de todos, a eólica, praticamente não se belisca: o corte até 2020 é menos de metade do sobrecusto que vamos ter que pagar apenas este ano! No total, o que eles pensam poupar até 2020 nem dá para pagar 80% das rendas, só deste ano!

Mas, enfim, mais cedo ou mais tarde, lá virá um corte maior! Como o corte que os investidores estão a fazer na EDPR, que hoje tocou finalmente nos 3 euros, na sua descida para Zero. E que Anthony Watts referenciou há pouco no WUWT, sobre o crash do Renewable Energy Industrial Index, da qual a EDPR faz parte.

Actualização: A EDP já veio dizer que estas grandes medidas beliscam apenas 2.5% dos seus lucros!!!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cortando nas rendas

Foram publicadas hoje as Portarias 139/2012 e 140/2012, que dão uma machadada na garantia de potência e na cogeração.

A portaria 139/2012 limita-se a revogar a Portaria 765/2010, que definia o mecanismo de garantia de potência. Como havia referido neste artigo, a interpretação dos ambientalistas não era efectivamente correcta. Todavia, a esta revogação suceder-se-á uma apresentação de novas condições e modos de funcionamento dos serviços de garantia de potência em regime ordinário, bem como a subsidiação a esta actividade. São dadas algumas indicações nesta Portaria, mas não são muito claras. Recorde-se que o mecanismo de garantia de potência se manterá, porque é efectivamente o mecanismo que nos garante que Portugal não ficará sem energia eléctrica, quando deixe de haver vento...

A portaria 140/2012 estabelece a revisão das tarifas de cogeração. Aparentemente as remunerações fixadas parecem ser inferiores às praticadas actualmente, e que segundo o documento mais recente da ERSE, fixa o valor médio da cogeração renovável, nos três primeiros meses de 2012, em 100.20 €/MWh, enquanto a outra cogeração teve um valor médio, no mesmo período, de 132.50 €/MWh. A Portaria define, por exemplo, para potências inferiores a 10MW, preços de 89.12 €/MWh para fuel-oil, 89.89 €/MWh para outros combustíveis fósseis, e 81.17 €/MWh para cogeração renovável, neste caso com potências inferiores a 2MW. Para potências mais elevadas, os valores diminuem. Todavia, uma leitura da portaria evidencia que há vários ajustamentos à tarifa de referência, como é o caso do aumento de 10%, para as tarifas nas horas cheias e de ponta, no caso de ter havido uma opção de modulação tarifária, em função dos períodos horários.

Enfim, parece ter começado o embate com o Monstro. Mas, numa primeira análise, parece apenas poeira para os olhos dos Portugueses... Ainda falta cortar muito, e os leitores do Ecotretas sabem onde não se está a cortar!

Actualização: O verde fóssil Nuno Ribeiro da Silva levou na ripa, e queixa-se de cortes na cogeração de 15%. A COGEN vai mais longe, e na edição impressa do Jornal de Negócios revela que o corte é de cerca de 30%...

sábado, 12 de maio de 2012

PNAER/PNAEE: Contributo aberto

Há três semanas alertava os leitores para a disponibilização online da nova proposta do PNAER e PNAEE, que se designa de “Linhas de orientação para a revisão dos Planos Nacionais de Ação para as Energias Renováveis e para a Eficiência Energética”. Entretanto, o documento deixou de estar disponível no site da DGEG, e até hoje não voltou a aparecer! Entretanto, enviei o documento para múltiplos leitores que mo pediram (quem quiser pode continuar a pedir por email). No site da DGEG, a própria notícia que referenciava a consulta pública desapareceu, sem qualquer indicação do ocorrido, e o desaparecimento já chegou aos Media.

Como o prazo da consulta pública é até 18 de Maio, não tendo sido cancelado, e como prometido, deixo abaixo os meus comentários, que submeterei à DGEG na próxima semana. Encorajo os leitores a enviarem também os seus comentários para o endereço de email disponibilizado pela DGEG, consultapublica2012@dgge.pt. Para isso, podem pescar ideias abaixo, mas a intenção não é fazerem copy&paste... Mas, na lógica que a Troika sugere, há que envergonhar o status quo actual, pelo que o vosso comentário contribuirá para um planeamento mais regrado para os próximos anos.



Exmos. Senhores,

No âmbito do processo de revisão dos PNAER e PNAEE, em consulta pública até 18 de Maio, junto os meus contributos.

O documento tem algumas boas medidas, com as quais necessariamente se concorda. Mesmo alterações ao PNAER/PNAEE anterior vão no bom sentido, como sejam a eliminação de medidas como a E8M4 (Escola Microprodutora), RS6M1 (Microprodução), ou a recente decisão de suspensão todos os novos licenciamentos da PRE. Assim sendo, os comentários subsequentes são respeitantes a dúvidas acerca das propostas efectuadas, ou então de propostas com as quais não podemos concordar. Nestas últimas, avançamos com propostas alternativas.

  1. Pressupostos macroeconómicos pouco ajustados à realidade
    Não deixa de ser preocupante que os pressupostos assumidos pareçam estar pouco ajustados à nossa realidade. Em termos de evolução macroeconómica, dificilmente o País conseguirá crescer ao ritmo anunciado depois de 2013, sabendo-se à partida das enormes dívidas contraídas em termos das PPPs, e mais especificamente na área da energia, no enorme défice tarifário e tarifas feed-in contratualizadas até ao final da década.

  2. Pressuposto pouco provável de evolução do preço de petróleo
    Em termos da evolução do preço de petróleo, as previsões de estabilidade são ainda menos fundamentadas! Por um lado, os conceitos de peak-oil defendem valores bastantes superiores do preço de barril, enquanto a utilização de novas fontes (eg. shale-oil) proporcionarão porventura preços inferiores. Assumir preços de barril de petróleo de 112 USD em 2020 é, no mínimo, arriscado.

  3. Evolução de preços deveria estar em Euros, e não em dólares
    Mas mais preocupante é assumir valores em dólares americanos, sendo que um documento desta importância deveria ter expresso os valores em EUROS, a moeda do nosso País!

  4. Previsões de evolução de gás natural não equacionam cenários recentes
    Igualmente preocupante são as previsões para a evolução do preço do gás natural, onde manifestamente não se equaciona o impacto da extracção de gás de xisto, que já fez baixar o preço do gás nos Estados Unidos para valores próximos dos mínimos das últimas duas décadas!

  5. Não se equacionam prováveis reservas de gás natural
    A propósito do gás natural, é preocupante que a DGEG não tenha equacionado as potenciais reservas de gás natural que parecem existir em Portugal! Por um lado, não levam em linha de conta a recente licença atribuída para prospecção de gás natural no Algarve, nem as potenciais reservas de gás de xisto, que relatórios internacionais apontam existir em Portugal. Porque não é feita nenhuma referência a este aspecto no PNAER/PNAEE?

  6. Improvável e pouco realismo dos preços das licenças de CO2
    A evolução dos preços das licenças de CO2 é igualmente pouco realista. Primeiro, porque o abandono dos grandes países do Protocolo de Quioto forçou em baixa o seu preço. Mesmo o preço no Mercado Europeu tem estado em queda livre! Depois, porque o abandono do nuclear por algumas potências mundiais vai-se traduzir em maiores emissões de CO2, e esses países vão ser os primeiros a não querer que esse mercado funcione, com nomeadamente a Alemanha à cabeça em termos europeus. Some-se o facto provado de que o Mercado de Emissões tem existido apenas para subsidiar alguns sectores (eg. cimenteiro), promovendo mesmo a retirada de competitividade às indústrias europeias, bem como um sem número de fraudes. Tudo isto faz com que o Mercado Europeu de Licenças de CO2 vá ter o mesmo destino do equivalente mercado americano: encerramento!

  7. Evolução irrealista da capacidade do sistema electroprodutor
    Os pressupostos relativos à evolução da capacidade do sistema electroprodutor são ainda mais criticáveis. Por um lado, já temos potência a mais. Isso é válido quer em termos de suportar os valores de ponta, onde a potência já suporta mais do dobro do requerido, quer em termos de suportar o consumo anual, onde a capacidade instalada é mais de três vezes superior à necessária. Por isso, a recente suspensão de mais licenciamentos é de louvar, apesar da capacidade do sistema electroprodutor continuar a aumentar no domínio da microprodução, que urge igualmente suspender o mais rapidamente possível. Por outro lado, a serem cumpridas as acções do PNAEE, na verdade é suposto que as suas consequências sejam a da diminuição do consumo de energia, e não do seu aumento! Por isso, é incompreensível que se aumente em mais 20% a potência total do sistema electroprodutor até 2020. Em particular, caso esse aumento venha efectivamente a existir, é muito importante que essa energia seja vendida em mercado aberto, sem qualquer subsidiação pública ou dos consumidores, nomeadamente através de tarifas feed-in.

  8. Retirada perigosa da PRO Térmica
    Em termos de PRO Térmica, a retirada das centrais de carvão afigura-se problemática. Em anos em que os recursos hídricos e eólicos sejam diminutos, como o foram simultaneamente este ano, é indesejável não existir capacidade térmica. Apostar unicamente em gás natural é colocar todos os ovos no mesmo cesto, o que é manifestamente arriscado. Tal decisão deveria ficar condicionada, nomeadamente, à prova e capacidade de utilização de reservas de gás natural em Portugal.

  9. Evolução indesejada da cogeração não-FER
    A estimativa de evolução da PRE estabelece um aumento reduzido mas prolongado, da cogeração não-FER. Num cenário de excesso de potência, tal não é desejável. Sendo certo que é conhecido que muita da produção em cogeração não cumpre os requisitos legais, o natural seria verificar-se uma diminuição nesta vertente. O facto de muita da cogeração não-FER ser ainda baseada em fuel-oil, devia levar a medidas de retirada de subsidiação, em vez do seu incremento. É incompreensível que se tenha feito um esforço de retirada do uso de fuel-oil, no Continente, para produção de electricidade, e se continue a subsidiar principescamente a sua utilização nos domínios da cogeração.

  10. Crescimento das eólicas é indesejável
    A estimativa de crescimento das eólicas no PRE é indesejável. O país já tem um excesso de eólicas, que desfiguram negativamente a paisagem de Portugal. Num cenário de excesso de capacidade instalada, e de uma maior eficiência energética, acrescentar ainda mais eólicas não tem justificação económica. Acresce o facto de que novos locais para instalação de eólicas serão necessariamente menos competitivos, em função da actual ocupação dos locais com maior potencial de vento. Qualquer cenário de sobreequipamento deverá significar a saída desses parques do PRE, directamente para o mercado livre. A eventual implementação de eólicas off-shore não deverá igualmente ser alocada no âmbito do PRE, devendo concorrer directamente em termos de mercado.

  11. Crescimento do solar fotovoltaico e termo-eléctrico é indesejável
    A estimativa de crescimento do solar fotovoltaico e solar termo-eléctrico no PRE é indesejável. Os custos são absolutamente astronómicos, e não deverá ser permitido que esses custos transitem para os consumidores/contribuintes. Ainda que seja cortada em mais de metade o crescidmento da capacidade neste domínio, é desejável que qualquer nova capacidade adicional nestes domínios não seja enquadrada no PRE, podendo eventualmente ser comercializada em mercado. Tal fomentará o desenvolvimento da tecnologia, ao contrário da massificação da subsidiação actual.

  12. Introdução da energia das ondas é indesejável
    A estimativa de crescimento da energia das ondas é igualmente indesejável. Depois do falhanço repetido desta tecnologia em Portugal, e noutros países, não faz sentido a utilização de uma tecnologia enquanto não estiver madura. Qualquer nova capacidade adicional nestes domínios não deverá ser enquadrada no PRE, podendo eventualmente ser comercializada em mercado.

  13. Perigo na promoção da cogeração
    Em relação à cogeração, mesmo que FER, e mesmo que como medida de backup, deve se ter especial cuidado na promoção desta tecnolgia, dado que é um dos factores que mais condiciona negativamente, neste momento, a evolução dos preços da electricidade. O documento refere, e bem, que tais medidas exigiriam algum grau de investimento público, pelo que não é certamente uma solução, de momento.

  14. Conflito na evolução do consumo de electricidade
    As previsões do consumo de Eletricidade, apontam para um crescimento de cerca de 7,4% entre 2010 e 2020. Com objectivos tão ambiciosos a nível do PNAEE, não é esta meta de crescimento anual demasiado elevada, especialmente a esperada entre 2015 e 2020?

  15. Estratégia perigosa de biocombustíveis
    A estratégia de aposta em biocombustíveis tem-se revelada um fracasso assinalável. A sua produção não é ambientavelmente e economicamente sustentável. A nível mundial, tem revelado igualmente um forte impacto na produção de alimentos, contribuindo para a criação de mais problemas, do que aqueles que efectivamente resolve. Em Portugal, a estratégia deveria passar primeiro por nos tornarmos auto-suficientes em termos alimentares, e só depois pensarmos em ocupar a agricultura a produzir ineficientemente este tipo de combustível.

  16. Eliminar microprodução
    Os subsídios efectuados no âmbito da microprodução são a forma mais anti-social de geração de energia eléctrica em Portugal. A microgeração é apenas para uma classe alta, com capacidade para suportar os custos de instalação, ou então empresas que se estão a aproveitar das tarifas feed-in escandalosas existentes. Os licenciamentos de microprodução subsidiada deveriam ser imediatamente suspensos.

  17. Promoção dos veículos eléctricos é anti-social
    A medida T1, relativa à promoção da aquisição de veículos eléctricos não é desejável. Os carros eléctricos são uma tecnologia ineficiente, cara, sem incorporação nacional, e destinados a uma classe média-alta, que não deveria ser subvencionada pelos restantes contribuintes. O reduzido potencial da medida, de apenas 2 ktep, significa que o retorno da medida, pura e simplesmente, não existirá. Igualmente anti-social seria autorizar a circulação de veículos eléctricos em faixas de rodagem reservadas a transportes públicos (BUS) ou faixas específicas, dado que mais uma vez estes carros só podem ser adquiridos por uma classe média-alta. O mesmo se aplica para a isenção do ISV e IUC, mais uma medida extremamente anti-social!

domingo, 6 de maio de 2012

Três em um da nossa desgraça

Há uma semana elaborei um post que evidenciava como o incremento em termos de potência foi muito superior ao consumo de electricidade, em hora de ponta, ao longo dos últimos anos. Na altura referi que esperava pelos dados da DGEG para fazer um gráfico equivalente sobre o consumo anual. Todavia, alertado por um leitor de que poderia esperar sentado, resolvi avançar com a extrapolação dos valores para o consumo do ano passado.

Os dados da DGEG, que são mais fáceis de consultar no Pordata, diferem dos dados da REN em vários aspectos. Os dados da DGEG são supostamente mais completos, porque incluem os valores de consumo das Regiões Autónomas, subtraindo também o consumo próprio das centrais. A correlação entre os dois valores das duas entidades, nos últimos anos, tem todavia sido muito elevada, pelo que é possível estimar com grande fiabilidade o valor para 2011 da série da DGEG, utilizando o valor da REN de 2011.

O resultado desta análise é a imagem seguinte. A verde está o consumo de energia em Portugal, expresso em TWh. Note-se como a subida é praticamente linear entre 2000 e 2007, mantendo-se estável a partir daí. Note-se igualmente a grande quebra no ano passado. A vermelho temos a relação entre a capacidade total de geração de energia (utilizamos a fórmula Potência*24*365), e o consumo observado. Nesta última vertente observa-se uma subida a partir de 2002, que entretanto dispara no últimos anos:



Estes dados permitem uma confirmação empírica daquilo que já dissemos aqui no blog. É efectivamente verdade que para produzir energia em Portugal já ultrapassamos em capacidade mais de três vezes as necessidades de consumo anual! E olhando para onde cresceu essa capacidade nas últimas décadas, mais uma vez a energia eólica é a grande culpada. E como a energia eólica não é fiável, precisamos das barragens para a armazenar, e das térmicas para produzir quando não existe vento. É, efectivamente, o três em um da nossa desgraça!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os filhos dos papás da EDP

O Rui Rodrigues apontou-me na direcção de um vídeo eloquente, que evidencia como os filhos dos papás da EDP são os mais felizes do Mundo! Não percam a sátira no vídeo abaixo, que já me tinha ocorrido, tal a desfaçatez do anúncio original...

sábado, 28 de abril de 2012

Potência vs. ponta

A imagem ao lado dá-nos uma ideia clara de como o sistema eléctrico português descambou nos últimos anos. A verde está o total de potência instalada em Portugal (escala à esquerda), e que cresce de cerca de 10 GW em 2000 para quase 19 GW em 2011. A azul está a potência máxima solicitada à rede (escala à esquerda), e que corresponde ao pico de consumo, e que cresceu de uma forma muito inferior, de cerca de 7000 MW em 2000 para um máximo de cerca de 9400 MW em 2010. A vermelho está o rácio entre as duas variáveis (escala à direita), e que cresce, nestas circunstâncias, também a um ritmo muito elevado. Todos os dados foram obtidos a partir da REN e ERSE.

O que significa este crescimento deste rácio? Uma coisa muito simples: temos capacidade instalada em demasia. No ano passado, pela primeira vez, tivemos mais do dobro da capacidade instalada do máximo do consumo atingido em Portugal! Ou seja, para termos uma certa quantidade de electricidade, temos o dobro do que seria necessário para produzir essa tal quantidade! Utilizando a analogia do Luz Ligada, poderíamos imaginar que cada um de nós teria sempre o dobro de lugares, ou de transportes, para nos deslocarmos de um lado para o outro!

Porque acontece isto? A maior razão está relacionada com o baixo factor de capacidade da energia eólica em Portugal, e que tem determinado a subida da potência instalada. Os leitores dirão que o mesmo acontece com a energia hidroeléctrica, mas ao contrário das eólicas, a energia produzida pelas barragens pode, e é, mobilizável justamente nos períodos de maior consumo. E o que é que isto significa? É uma evidência que estamos a pagar um duplo investimento para termos a certeza que temos electricidade nos picos de maior consumo! E estou só a falar de consumo de ponta, porque para o consumo médio, a situação ainda é mais vergonhosa. A ela voltarei quando tiver os dados de consumo de 2011, que ainda não foram publicados pela DGEG.

Noutros países, em vez de se fazer uma gestão esbanjadora, faz-se uma gestão apertada. O exemplo Norueguês é um clássico, como pode ser visto neste documento. Este estudo alemão analisou a realidade da Alemanha. Na verdade, a maioria dos estudos restantes que observamos são antigos, pois esta é uma realidade muito inconveniente...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Cortar nos luxos e excesso de voluntarismo

As audições na Comissão de Economia e Obras Públicas terminaram há minutos, com muitas novidades! Estiveram presentes o ex-Secretário de Estado da Energia, e o actual Secretário de Estado da Energia, Artur Trindade. Fico com um mixed feeling sobre as suas declarações, sendo que Henrique Gomes continua com a sua guerrilha com António Mexia. As suas declarações, bem como a divulgação dos estudos confirma que Gomes estava obcecado com Mexia, e não com resolver verdadeiramente o problema. Enfim, hoje até reconheceu que "deveríamos ter feito os investimentos nas eólicas com mais cuidado", mas o resto foi um ataque cerrado a quem é responsável por apenas parte do buraco.

Artur Trindade avançou com algumas ideias claras, que tenho defendido aqui no blog. Relativamente ao PNBEPH, referiu que "existe e é para cumprir, agora não me venham pedir mais subsidios, o plano é para cumprir mas não para onerar mais a factura", o que significa que a minha interpretação da garantia de potência é correcta, e desmistifica totalmente as contas da GEOTA e companhia.

Na vertente da cogeração, Artur Trindade referiu que "temos que atalhar o problema dos falsos produtores de co-geração e que cuja actividade se centra na remuneração fixa". Referiu que "a redução é muito significativa, em torno de 100 milhões por ano, em ano cruzeiro, mas isso nao chega". Pois não, e pelos casos que temos levantado no blog, muitos cortes haverá aqui a fazer!

Na vertente das energias renováveis, Artur Trindade também não poupou nas palavras, embora tenha sido cauteloso. Segundo o Secretário de Estado, o Governo não tem "nada contra as energias renováveis. Mas deve haver moderação nos custos e na forma de remuneração, porque o país não tem capacidade de pagar luxos e excesso de voluntarismo" e que as "remunerações são muito acima da média". Falta saber se vão tomar medidas, ou se isto é apenas para parlamentares ouvirem...

sábado, 21 de abril de 2012

A vergonha do PNAER e PNAEE

Na sequência da estratégia de envergonhar os lobbies que se posicionam para continuar a mamar e chuchar no bolso do contribuinte e consumidor, e que teve uma reacção assinalável de muitos leitores, há agora uma outra via muito interessante de todos contribuirmos para tentarmos por alguma ordem nisto.

Está em discussão pública a nova proposta do PNAEE e PNAER, que se designa de “Linhas de orientação para a revisão dos Planos Nacionais de Ação para a Eficiência Energética (PNAEE) e para as Energias Renováveis (PNAER)”. O documento, que descarreguei ontem do site da DGEG, e ainda está disponível neste link, é dado no site da DGGE como estando indisponível, por motivos de ordem técnica. Agarrem uma cópia, porque ou muito me engano, ou vai ter uma segunda versão melhorada.

Eu já dei uma vista de olhos de 5 minutos e encontram-se algumas, poucas, ideias esperançosas. Mas continua cheio de disparates! E as próprias reacções saídas na Imprensa dão-nos conta de como os lobbies estão incomodados. Ou porque o Governo trava eólicas e corta energia solar em mais de 60%, ou porque o apoio à microprodução tem os dias contados. Sente-se o pânico no ar, o qual já contagiou os burocratas de Bruxelas, que esperam manter a nossa caminhada na direcção da Idade Média...

O PNAER e PNAEE estão em consulta pública até 18 de Maio, mas até essa informação foi retirada do site da DGEG. Algo de muito extraordinário em termos de pressões se deve estar a passar, mas o ideal é documentar a situação actual, porque no futuro tudo isto desaparecerá:


Entretanto, o Plano das Festas será o seguinte: Nas próximas duas semanas analisarei o documento, e recolherei as opiniões dos leitores. Uma semana antes de terminar o prazo dos comentários/observações, farei um resumo dos pontos que serão importantes considerar neste documento, que condicionará de forma muito significativa a estratégia energética dos próximos anos. Então, convidarei os leitores a envergonhar o status quo actual, submetendo comentários/observações de que eles estarão pouco à espera...

Actualização: O link do documento já não funciona. Quem quiser, é só pedir por email (canto superior esquerdo)...
Actualização II: Podem ler os comentários ao PNAER/PNAEE aqui.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Preços electricidade OMIE em 2011

Os preços de electricidade praticados no âmbito do MIBEL, e que estão acessíveis no site do OMIE, dão-nos uma perspectiva clara dos preços praticados em termos de um mercado que se pretende aberto. Tenho sido desafiado por vários leitores, e mesmo críticos, e porque mais ninguém parece querer investigar, a divulgar publicamente estes dados. Por isso, cá segue o início de mais um exercício de serviço público gratuito.

No primeiro gráfico abaixo podemos observar a distribuição do custo da electricidade no mercado, para cada um dos períodos horários do ano de 2011. São um total de 8760 pontos, que se concentram essencialmente em torno dos 40 a 60 €/MWh. Para uma contextualização da importância destes dados, foi inserida na imagem uma linha nos 93.50 €/MWh, o valor médio pago às eólicas em 2011. Tal significa uma coisa muito simples: a mais competitiva das energias alternativas, foi apenas competitiva em termos de mercado numa hora do ano! Tal feito histórico, ocorreu entre as 20 e 21 horas de 12 de Janeiro de 2011.

No segundo gráfico abaixo podemos observar todos os pontos ordenados por ordem crescente de preço. Também aqui se verifica que durante a grande maioria dos períodos horários do ano se verificaram preços entre os 40 e 60 €/MWh, com 95% dos períodos horários a registarem um valor inferior a 65.81 €/MWh. Comparando com um gráfico de 2010, o primeiro neste post emblemático, verifica-se muito menos electricidade de borla, em função da maior produção hídrica dos primeiros meses de 2010, e também menos períodos horários com valores superiores aos dos valores médios pagos aos produtores eólicos. Nota-se também uma subida dos valores médios significativa, e que a ERSE contabilizou como preço de referência do mercado regulado em 38.74 €/MWh para 2010, e de 51.84 €/MWH em 2011. Ainda assim, 2011 acabou por ser o terceiro ano com electricidade mais barata desde 2002!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Imbecilidades de Eduardo Oliveira Fernandes

O leitor assíduo Rui Nogueira da Costa enviou-me um link para uma notícia com referências de Eduardo Oliveira Fernandes, presidente da Agência de Energia do Porto (AdEPorto), que se sai com umas tiradas absolutamente imperdoáveis. Aliás, Eduardo Oliveira Fernandes é cada vez mais uma nódoa, como o provou na sua recente participação na peixeirada do Prós e Contras. Mas agora, Eduardo Oliveira Fernandes consegue ser ainda mais ignóbil, como o prova a declaração inicial:

a crise "tem sido um ajudante extraordinário" na redução das emissões porque "tem levado à redução de consumos de energia, em particular da eletricidade, que as pessoas gostavam de queimar à tripa-forra".

Nós sabemos que o objectivo desta palhaçada é um regresso à Idade Média. Eduardo Oliveira Fernandes junta-se assim a pensadores deploráveis, como Jorge Vasconcelos, que nos querem fazer passar mal, para alguns, poucos, poderem continuar a mamar. Ao mesmo tempo, diz uma série de disparates:

"Na realidade, a eletricidade é a energia mais poluente que nós temos em Portugal. Devido à crise, tem havido redução do seu consumo. Por um lado, a redução do consumo e o crescimento das renováveis fazem com que estas tenham um peso significativo na eletricidade e com que esta seja mais limpa. Como há menos consumo, há menos emissões"

Não sei como ficam os defensores dos carros eléctricos neste filme... Se a electricidade é a energia mais poluente que temos em Portugal, então definitivamente um SUV é melhor que um carro eléctrico! Numa versão mais extensa desta propaganda inqualificável, no Porto Canal, Eduardo Oliveira Fernandes continua com as imbecilidades:

"O facto de a energia ser mais cara é também um bom sinal, ao contrário do que se diz, porque se a eletricidade é energia por excelência, ela tem que ser mais cara do que qualquer outra"

Tem que se dar conta destes académicos. Como peça central da estratégia de energia da última década, é a pessoas como Eduardo Oliveira Fernandes que os Portugueses têm que pedir contas!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Envergonhar as empresas de energia

O Jornal i do passado Sábado tinha uma capa interessantíssima, a remeter para um artigo de Bruno Faria Lopes. Nele se refere que o Governo tem armas alternativas à renegociação dos contratos de energia, e que passam por envergonhar publicamente as empresas que não cedam... Tudo isto parece ter sido uma ideia da Troika!

Gostei muito do artigo! E ocorrem-se-me logo múltiplas formas de envergonhar estas empresas, que não incluem apenas a EDP, como recentemente evidenciamos com o exemplo da Endesa. Aliás, a maior parte dos Portugueses indignados fariam muito melhor em manifestar-se em frente das sedes destas empresas, que em muitos outros locais deste País.

No entanto, o Ecotretas não vai sugerir manifestações. Essas não teriam muito impacto em empresas que não estão habituadas a ouvir os Portugueses. As sugestões têm que ser mais substanciais. Para começar, é preciso tocar-lhes onde lhes dói mais: no dinheiro que nos roubam.

Assim, a primeira sugestão é simples: como a redução do consumo pode não levar a lado nenhum, a forma mais fácil de lhes ir buscar dinheiro é na potência do contador, e que referimos aqui há vários anos. Por exemplo, diminuir de 6.9 kVA para 4.6 kVA, significa uma poupança neste momento de mais de 3 euros mensais! Eu consegui fazer ainda mais, mas este é apenas um salto. Apenas há que ter em atenção que não se pode ter vários equipamentos devoradores de energia ligados em simultâneo. Nos primeiros tempos poderão surgir alguns disparos do disjuntor, mas rapidamente se adaptará... A adaptação não é muito distinta daquela que é necessária fazer quando se adopta o bi-horário.

Se todos os consumidores domésticos portugueses (cerca de seis milhões) conseguissem fazer uma mudança desta dimensão, que é gratuita, haveria um rombo nas contas da EDP de cerca de 18 milhões de euros mensais, ou seja de 216 milhões de euros anuais. Seria um enorme cartão amarelo! Bora lá mostrá-lo!

sábado, 7 de abril de 2012

Para onde caminha a China?

Via Terrorismo Climático, apercebemo-nos que os Chineses se mantêm lúcidos em termos da sua estratégia energética. Enquanto por cá pensamos que eles compraram a nossa EDP pelos seus lindos olhos, esquecendo-nos que serão agora para eles que irão os nossos ovos taxas de ouro, por lá a estratégia energética é clara!

Num relatório governamental de 5 de Março, o Primeiro Ministro Wen Jiabao está determinado em apostar na utilização de um mix energético seguro: nuclear, gás de xisto e hidroeléctrico. E está determinado em acabar com a expansão cega da energia solar e eólica!

Tais avanços são confirmados num relatório da Agência Internacional da Energia Atómica, que perspectiva um aumento da energia nuclear em 100% nas próximas duas décadas, suportado num crescimento na Ásia, e especialmente na China e Índia. Tal permitirá um crescimento substancial das centrais nucleares chinesas, que podemos ver no mapa acima, retirado daqui.

No domínio do gás de xisto (shale gas), as expectativas são ainda maiores. Em 2015 a produção de gás de xisto deve atingir os 6.5 mil milhões de metros cúbicos, e pelo menos 10 vezes mais em 2020! Os Chineses incentivam as suas empresas a procurar empresas no estrangeiro com tal tecnologia, mas a EDP não é certamente uma delas... Segundo a notícia, também para aqueles lados o preço do gás tem vindo a descer, sendo que praticamente apenas na Europa vamos pagando mais por ele!

Segundo a notícia original, na área das energias renováveis, o que vai dar são as novas barragens, que serão responsáveis por dois terços do aumento de capacidade. Eles planeiam adicionar 20GW de potência hidro-eléctrica, um aumento de 57% ao ano!

E por cá, na Europa, ainda ficamos a tentar perceber porque os Chineses estão a crescer, e nós nos estamos a enterrar? Não há dúvidas que os nossos políticos andam completamente a dormir...

domingo, 1 de abril de 2012

A hora da Terra

A hora da Terra foi comemorada ontem entre as 20:30 e 21:30. Eu, da minha parte, comemorava-a consumindo a electricidade lá de casa sintonizada no Estádio da Luz... Mas tal como há dois anos atrás, esta hora tem que ser comemorada pensando sempre nos desgraçados que vivem na Coreia do Norte. Sempre que esta ideia da WWF recorre por aí, é neles que eu penso, a que se junta agora todos aqueles que em Portugal também comemoram todas as noites esta ideia patética de viver sem electricidade...

A imagem acima (retirada daqui) documenta como a Coreia do Norte é um deserto luminoso, o estilo de local que inspira os ecologistas da treta. Mas nenhum deles se digna ir para la. E a Coreia do Sul é uma ilha luminosa, que brilha em pleno contraste. Muitas imagens evidenciam como os melancias têm à sua espera o reino de Deus, nesse canto inacessível. Mas para todos aqueles que querem mais imagens inspiradoras, podem também ver o aspecto de todo o planeta à noite (retirada daqui), embora a imagem não seja visível na maioria do software porque tem 15000x30000 pixels. E nesta sequência animada podem ver mais imagens do planeta à noite, enquanto este não regressa à Idade Média...

sexta-feira, 30 de março de 2012

Candeeiros a petróleo

Enquanto os Pimentinhas vão mamando, a EDP lucra milhões, e os melancias falam de perus bêbados, e alguns não fazem a menor ideia do que propõem, há alguns poucos jornalistas que nos dão uma visão real do que se passa neste País. Num País em que se morre muito mais de frio, o Jornal i fez mais uma reportagem importantíssima. Ao contrário dos outros jornais, quase todos eles orientados à visão alarmista, o Jornal i tem dado provas ultimamente de que nos relata a realidade, em vez da ficção...

Na terça-feira, o jornalista Sérgio Soares entrevistou Carlos Silva, que trabalha na casa Higino & Fragoso, fundada em 1937 no centro de Oeiras. Nesta Economia Verde, o que está aparentemente a dar são os candeeiros a petróleo! A seguir transcrevo apenas parte do artigo, que recomendo leiam na íntegra, para perceber onde nos trouxe esta Economia Verde:

Quando lhe perguntamos se o seu estabelecimento vende muitos candeeiros a petróleo, Carlos Silva explica o inesperado sucesso de vendas de forma lapidar: “Encomendo aos 150 candeeiros de cada vez e desaparece tudo.”

“Algumas pessoas têm vergonha quando vêem comprar candeeiros a petróleo para iluminação e dizem que é para decoração, mas na semana seguinte cá estão de novo a comprar mais um litro de petróleo”, diz, acrescentando que um candeeiro completo custa 40 euros.

Mas vendem-se assim tão bem?, insistimos: “Se se vendem bem? Ó amigo, o que vier desaparece logo!”

Carlos Silva garante que há pessoas em situação ainda pior e que nem candeeiros a petróleo usam em casa. “Tenho uma cliente que já só usa velas para iluminação. Só gasta um pouco de gás para cozinhar. Para comer, nem de noite usa electricidade. No fundo, até é romântico”, graceja, arrependendo-se de imediato da piada.

segunda-feira, 26 de março de 2012

A analogia dos transportes públicos

Bruno Carmona, no Luz Ligada, escreveu hoje uma analogia, em que compara a produção e distribuição da energia eléctrica na Península Ibérica, com o sector dos transportes. É uma forma de se mostrar, de uma forma simples, como isto anda tudo engatado. Aproveito para pedir aos leitores que deixem alguma contribuição no blog de Bruno (eu vou já lá a correr), para que possa surgir uma versão ainda mais utópica desta analogia:

Imaginemos que o sector electroprodutor é a rede urbana de transportes públicos. De um lado temos taxis eléctricos que são as fontes renováveis intermitentes. Do outro a rede de autocarros que equivale à produção ordinária (termoeléctricas e barragens).

Os utentes são obrigados por lei a utilizar o taxi sempre que um esteja disponível mesmo que estejam numa paragem. Apesar do custo ao quilómetro do taxi ser superior ao do autocarro o preço de transporte não é diferenciado. Existe um bilhete válido para os dois tipos e o seu preço varia apenas com a distância percorrida e não o meio de transporte.

O preço deste bilhete não cobre os custos de transportar pessoas de taxi por isso o Estado paga aos operadores de taxi um valor fixo por esse serviço (subvenções às renováveis - FIT). Estes custos de se obrigar as pessoas a usar taxis quando podiam ir de autocarro são passados para os consumidores ao serem incluídos numa parcela do preço chamada Custo de Interesse Económico Geral (CIEG). Existe ainda outra parcela para manutenção de paragens, praças de taxi equivalente aos custos de rede eléctrica.

Os taxis têm uma capacidade limitada de passageiros transportados (baixa densidade de produção) e os taxistas têm horário livre (intermitência). O fluxo de utentes é conhecido mas o de taxis não. Isso faz como que o parque de taxis tenha de ser sobredimensionado ao mesmo tempo que a sua disponibilidade é aleatória. Para não provocarem engarrafamentos quando existem demasiados a circular existem parques de estacionamento que os acolhem (bombagem em baragens). Para mitigar falta de taxis a utilização da frota de autocarros não é optimizada para a procura. Está constantemente a circular independentemente de haver utentes nas paragens. Os operadores de autocarros recebem compensações sempre que circulam sem lotação esgotada, são os CMEC. Quanto mais taxis circulam e menos utentes necessitam de autocarros o valor de CMEC, FIT e aluguer de estacionamento aumenta.

Apesar do maior custo de se usar taxis eléctricos em vez de de autocarros o Estado considera vantajoso pois isso permite poupar na importação de combustíveis fósseis necessários ao funcionamento dos autocarros. No entanto, como quase toda a frota de taxis que opera em Portugal foi importada na realidade o serviço fornecido pelos taxis (equivalente à eelctricidade produzida pelas fontes renováveis) tem uma componente de importação tão ou mais elevada quanto os autocarros (fontes convencionais).

domingo, 25 de março de 2012

Paulo Pinho no Olhos nos Olhos

O professor universitário Paulo Pinho, da Universidade Nova de Lisboa, vai participar amanhã no "Olhos nos Olhos" da TVI24. Este programa televisivo, que tem apresentação de Judite de Sousa, e participação permanente de Medina Carreira, vai para o ar amanhã, segunda-feira, pelas 21:30.

O programa vai abordar o tema das rendas excessivas na electricidade. Encaro a participação de Paulo Pinho com muita expectativa, até porque as suas posições públicas nesta matéria são de enorme crueldade. E essas posições vem de trás, como já abordei nestes dois artigos anteriores. E ao contrário de muitos comentadores, este ex-adminstrador da REN fez tais comentários em plena ditadura do Trocas-te. Não deixem de ver este programa, porque quem nele vai estar presente escreveu o seguinte, a propósito da visão da Troika sobre o sector da Energia (realces da minha responsabilidade):

Onde o Memorando de Entendimento se revela mais ambicioso é no desafio que levanta relativamente à redução dos sobrecustos resultantes de opções de política energética pagos por todos os consumidores – estejam no mercado livre ou regulado – através das tarifas de acesso às redes. Estes custos representam cerca de 50% da factura energética de um consumidor doméstico. Uma leitura atenta desta secção do Memorando revela uma crítica demolidora às opções de política energética dos últimos anos. Prevê que se repensem as opções sobre os investimentos em energias renováveis “não maduras” – leia-se solar fotovoltaico, energia das ondas, entre outras. E para toda a área das renováveis – incluindo a eólica e a cogeração – prevê a descida das tarifas a pagar em futuros empreendimentos, assim como (e aqui entra uma corajosa iniciativa) a renegociação das que são pagas aos centros electroprodutores já existentes. Haja coragem para o fazer.

O Memorando prevê igualmente a renegociação dos CAE (contratos de aquisição de energia) e CMEC (custos de manutenção de equilíbrio contratual). Na prática, estes contratos colocam uma componente substancial da produção eléctrica ordinária num regime de (elevada) rendibilidade garantida, sem risco. Mesmo que se encontre obsoleta e redundante. A sua existência importa um custo elevado para todos os consumidores. As empresas invocam direitos adquiridos para evitar tal renegociação. Por seu lado, os cidadãos perdem com este acordo um sem número de direitos adquiridos, pelo que não se percebe porque haverá de ser diferente no caso das empresas. Mas quando se procedeu à substituição de CAE’s por CMEC no maior produtor nacional, este obteve uma garantia de cash-flows futuros maior do que a que resultava dos contratos iniciais. Tudo por causa do exercício, a custo irrisório, da opção de extensão da operação das centrais hidroeléctricas que ali foi discretamente introduzida.

Veremos se o Estado português terá sabedoria para aproveitar esta oportunidade que lhe é dada para estimular a competitividade da economia, quebrando os “lucros excessivos” da componente regulatória e economicamente mais arcaica do sector: a produção.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Custo da electricidade em Espanha

Enquanto cá nos queixamos do custo da energia eléctrica, e da politiquice associada, também os nossos vizinhos espanhóis, tão verdes, ou mais verdes, que nós, fartam-se de pagá-la! Lá, como cá, o custa da energia propriamente dita é apenas uma parte da factura. O mesmo podem constatar neste simulador, que está a deixar nuestros hermanos tão abananados como nós. Experimentem e vejam como eles pagam 4 vezes mais na factura eléctrica, de que o verdadeiro custo da energia! E vejam também os restantes elementos, clicando neles, pois aparece mais detalhe sobre cada um dos valores. Eles vão agora começar a perceber que têm de pagar pelos excessos do passado, incluindo a monstruosa dívida que herdaram do Zapatero...

terça-feira, 13 de março de 2012

As razões da EDP

Alguns leitores ficaram surpreendidos com o facto do trabalho de Henrique Gomes não me ter impressionado, conforme referenciei neste artigo de manhã. Contra a análise de toda a Comunicação Social, pessoalmente entendo que a sua passagem pela Secretaria de Estado da Energia foi uma nódoa!

Henrique Gomes assentava a sua luta contra a EDP, na teimosia em dois aspectos. Por um lado na garantia de potência. Por outro, nos CMEC (Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual). Como os leitores habituais do blog sabem, estas duas vertentes não são em si o maior problema, pois no primeiro caso resulta essencialmente do excesso de eólicas que há em Portugal, enquanto os CMEC são o terceiro item mais significativo das tais rendas excessivas.

Acresce que Henrique Gomes andava entretido numa guerrilha pessoal com António Mexia (minuto 09:35), o que era relativamente conhecido no meio. Há uns dias, Mexia não foi parco em palavras, e o problema é que, em parte, ele tem razão! O problemas das rendas excessivas está sim nas eólicas e na cogeração, e aí a EDP não é, de longe, quem mama mais dos contribuintes/consumidores. Nas eólicas, por exemplo, conforme referimos há uns dias, a EDP, através da EDP Renováveis, produziu em 2011, 1391 GWh de energia eólica. Segunda a REN, a produção total das eólicas em Portugal foi de 9005 GWh, o que revela que a EDP mamará "apenas" cerca de 15.45% dos sobre-custos eólicos do País. Sobre a cogeração não tenho dados, mas é quase certo que a percentagem será ainda menor...

Assim sendo, é razoável que Henrique Gomes tenha partido! Não me deixa saudades, mas também não me deixa alegre, até porque como disse de manhã, para lá vai alguém ligado ao Monstro. O que é importante é que nos próximos dias trarei aqui mais dados que evidenciam como a EDP não é o único mau-da-fita deste filme trágico...

Actualização: O texto do segundo parágrafo foi alterado para corrigir o enquadramente dos CMEC.
Actualização II: O discurso de Henrique Gomes, que não foi efectuado no ISEG, foi disponibilizado online. Confirma que Henrique Gomes não estava realmente a ver onde está o Monstro...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Dying from cold

Portugal has had in the last weeks a big increase in the total number of deaths. As can be seen in the graph below (original here - in Portuguese), the last weeks have seen several hundreds of excess deaths in Portugal:


The graph shows the inconvenient truth that more deaths occur with the cold. Nothing really new, given the fact that this is observed in many countries around the world. And while people will continue dying, it really shows that the Global Cooling would have more impact than Global Warming. And that is especially true in Portugal, given the claim that 2011 was the 6th warmest year in 80 years, but no excess deaths occurred in the Summer out of the 95% confidence range.

These deaths have been attributed to two factors: the extreme cold that has been occurring in Portugal (and also Europe) and to the very high costs of energy in Portugal. Regarding this last factor, it is one of the main reasons why the Portuguese Economy has sank in the last years. In the last months, electricity costs have soared even more, with a VAT tax increase from 6% to 23% (now one of the biggest in Europe). An additional rise of 4% occurred at the beginning of this year. Even before this, official European statistics already ranked Portuguese electricity taxes the third highest in Europe (after Denmark and Germany), but some quick calculations reveal that almost certainly Portugal will have the highest cost of electricity in Europe, in 2012, considering the mean household income.

Despite all this, the Government is holding back cuts to the very generous feed-in tariffs given to wind and solar producers in Portugal! The only thing they have done is indefinitely suspending issuing licenses for new renewable energy projects, in the beginning of this year. Obviously, the producers are afraid that something more will be done. In the meantime, people associated with the alternative energy producers have come forward stating that the rises should be even bigger! Might be an incentive for people dying faster? Interestingly, it was not the Media that started talking about this, but the Health Minister, a clear symptom how inconvenient these deaths are for the Portuguese Media, mostly aligned with the Green movement.

Update: The number of deaths rose again last week, for the fourth consecutive week, to 3080, from 3030 the week before, as shown in the graph (data here - in Portuguese).