sábado, 27 de fevereiro de 2010

Previsões, leva-as o vento



A tempestade que ontem se abateu sobre o país foi amplamente anunciada na Comunicação Social. Depois do desastre das previsões acerca do que aconteceu na Madeira, o Instituto de Meteorologia não podia fazer a coisa por menos, e declarou o alerta vermelho para quase todo o Norte e Centro do país, conforme pode ser visto na primeira imagem acima. Conforme se pode observar nas próprias páginas do IM, o alerta vermelho relativamente ao vento é considerado quando a velocidade média do vento ultrapassa os 90 Km/h.

O problema é que os valores previstos ficaram muito longe da realidade. A observação dos próprios dados do IM, no período mais crítico, e que está visível na segunda imagem acima, revela que às 16 horas, a velocidade máxima havia sido registada no Porto, com cerca de 60Km/h. Esta velocidade do vento nem sequer o alerta laranja justifica! No site do SNIRH são disponibilizados dados muito mais detalhados, que confirmam os dados dos ventos médios. A primeira imagem na segunda linha acima é relativa à estação mais a norte, supostamente onde os impactos seriam máximos. Apenas momentaneamente passou os 40 Km/h. Pelo resto do país as velocidades apenas ligeiramente superaram os 60 Km/h, conforme se pode ver nas imagens seguintes.

A verdade final é que as previsões do Instituto de Meteorologia sairam completamente furadas. Os ventos passaram muito ao largo da costa portuguesa, revelando as ineficiências das previsões, mesmo a algumas horas de distância!

Cobardia eólica

É sabido que a energia eólica funciona com o vento. Quando ele existe, claro! Muitas pessoas desconhecem todavia que vento a mais é um problema. E hoje fica aqui o registo para a posteridade do que acontece à produção eólica quando há algum vento a mais. No gráfico ao lado, verifica-se em primeiro lugar que a diferença entre a potência prevista e a efectivamente gerada é muito significativa. Parece que quem faz as previsões não sabe bem o que acontece quando há um alerta vermelho meteorológico relativo a vento. Registe-se igualmente que o pico de vento sentido nesta tempestade, que afectou Portugal, ocorreu a meio da tarde, quando a produção de energia eólica foi a mínima observada durante o dia...

Alqueva: sempre a bombar desperdício


Depois de há dois meses o Instituto de Meteorologia estar preocupado com a seca, o país rapidamente passou para as preocupações com as cheias. Logo no início de Janeiro, observamos que a energia desperdiçada constituía energia suficiente para alimentar cerca de 3200 famílias portuguesas durante todo o ano de 2010! E outras notícias deram conta das consequências, felizmente não envolvendo percas humanas. E posteriormente confirmamos que a energia desperdiçada nesses primeiros dias era equivalente à energia gerada pelo MARL também num ano.

Passado mais de um mês, pode-se fazer novo balanço. Desde então para cá, o Alqueva continuou a bombar. A bombagem reversível durante este ano, até ao passado dia 25 de Fevereiro (os dados disponíveis neste momento), consumiu quase 22GWh. Esta energia é a suficiente para abastecer 7300 famílias durante um ano completo, ou o equivalente a quase 3 meses de produção da central solar da Amareleja! Verificaram-se, igualmente durante esse período, descargas de 936hm3, o que já representa um desperdício superior a 20% da sua capacidade de armazenamento (que é de 4150hm3). Este volume de descargas é muito superior (mais de 7 vezes) à água que foi bombada durante estes dois primeiros meses de 2010, pelo que efectivamente foi desperdiçada claramente toda a energia dispendida na bombagem reversível. Ou dito de outras forma, a água descarregada no Alqueva este ano daria, caso fosse possível aproveitá-la, para produzir tanta energia quanto a Amareleja produz em dois anos!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

CO2 na escola

Um leitor atento indicou-me um post de Antón Uriarte, no seu blog, relativo ao tema das concentrações de CO2, na atmosfera interior de uma escola. O artigo referencia um paper de Griffiths et al., Control of CO2 in a naturally ventilated classroom, na revista Energy and Buildings, que estudou as concentrações de CO2 numa sala de aula.

Pelo gráfico acima, rapidamente percebemos, como diz Uriarte, que as nossas criancinhas já há muito teriam morrido, se o CO2 fosse assim tão mau como o pintam. Reparem como o pico supera os 3000 ppm de CO2, quase uma grandez acima das concentrações na atmosfera. Vale a pena ler o artigo na totalidade, para perceber mais em detalhe as evoluções dos valores. Na Internet há mais artigos sobre o tema, como este, que também detalha como podem ser atingidas grandes concentrações de CO2, derivado da respiração dos docentes e alunos...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Quebra de confiança

Os alarmistas não encaixam o que se está a passar... Alguns, os mais soft, até já começam a acordar, como é o caso do Andrew Revkin, do New York Times, que ontem tem um artigo que merece uma leitura atenta. Nele se refere, entre outros aspectos, que a evolução explosiva da blogosfera é uma força disruptiva nos domínios das discussões climáticas e da energia. E dá o exemplo de Anthony Watts, que detém já alguns prémios de melhor blog, e com várias dezenas de milhões de visitas em apenas pouco mais de dois anos.

Falando de Watts Up With That, há hoje um artigo sobre uma experiência blogosférica desenvolvida por Judith Curry, do Georgia Institute of Technology. Fala-se de muita coisa aqui abordada, mas de uma dimensão que todos pensávamos existir na ciência, mas que hoje está quebrada: a dimensão da confiança!

É por isso que os mais alarmistas ainda não entendem o que se passa. Como o do artigo de hoje no desmogblog.com. Richard Littlemore não compreende como dois inquéritos de opinião nos Estados Unidos e Reino Unido mostram um colapso na convicção de as alterações climáticas serem um assunto premente. Parece impossível, para ele, que a população não continue a acreditar cegamente nos argumentos dos alarmistas. Para estes, a ciência continua a não ter discussão, pelo que a população tem que ter cuidado naquilo que lê. Naquilo que os alarmistas propagandeiam, digo eu!

Actualização: Um leitor enviou-me um link para um artigo da BBC, que cita o president da Academia Nacional das Ciências doa EUA, Ralph Cicerone, como tendo dito que "There is some evidence that the distrust has spread," e que "There is a feeling that scientists are suppressing dissent, stifling their competitors through conspiracies.". Não é que Cicerone seja de confiança, mas talvez também já esteja a ver a luz...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Areia para os olhos dos madeirenses

A história do radar meteorológico para a Madeira tem sido a forma que o IM arranjou para disfarçar o seu inqualificável falhanço na previsão do dilúvio que se abateu sobre a Madeira, no passado fim de semana. Como diz o DN, foi necessária a ocorrência de uma tragédia da dimensão da que agora aconteceu na Madeira para o Ministério da Ciência e da Tecnologia, Mariano Gago, dar luz verde à instalação de um radar meteorológico no arquipélago.

O Ministro diz que o radar até foi anunciado antes da tragédia, na semana passada, no dia 16. Ele esquece-se é de dizer que já deu luz verde ao projecto em 2008, mas que se esqueceu de avançar com o financiamento. À TSF, Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia, afirmou que a instalação de um radar meteorológico na Madeira "entrou no quadro de preocupações" do IM, mas não quis precisar uma data para a colocação do aparelho pois esta implica "capacidade de financiamento". Mas para Victor Prior, delegado do IM na Madeira, a coisa não é bem assim, sendo que ele dizia antes da tragédia, na semana passada:

Seguramente que será um bom investimento, daqui por três a cinco anos. É algo em que o IM está empenhado e eu, como meteorologista, sinto também a falta desse equipamento que nos permite fazer uma vigilância à volta da Madeira de cerca de 200 quilómetros

Mas, para que serve o radar? Segundo o presidente do IM, a inexistência de um radar na ilha "dificulta a previsão destes fenómenos que poderiam ser antecipados entre quatro a cinco horas antes de tudo acontecer". Mas para o Ministro, que falava hoje na Assembleia da República, o radar permite "antecipar talvez em duas ou três horas o alerta emitido". O Delegado do IM na Madeira, esclarece:

O nosso interlocutor considera que as informações por radar são das mais importantes em termos de observação meteorológica, possibilitando acompanhar de 5 em 5 minutos a evolução de células conectivas, associadas a situações de precipitação intensa, em vez dos actuais 15 minutos através das imagens de satélite, com um atraso de 5 a 10 minutos.

Afinal, eles até têm imagens de satélite, que são actualizadas de 15 em 15 minutos!!! O radar permite acompanhar de 5 em 5 minutos. Ainda estão a seguir o raciocínio do Adérito e do Ministro?

E quanto é que custa? A maioria diz que são dois milhões de euros. No Jornal da Madeira, o investimento é de 3 a 4 milhões de euros. Não fiquem admirados se a coisa derrapar muito...

Pensando bem, os radares também não funcionam sozinhos. O problema parece ser diferente: o de tratar os dados de satélite, os tais que até estão disponíveis de 15 em 15 minutos. Será que há quem trate disto localmente na Madeira? Uma rápida observação ao "Plano de Actividades 2009" do Instituto de Meteorologia (o último disponível) revela (pag. 139 e seguintes) que são 20 os recursos humanos da Delegação Regional da Madeira (DRM). Repare-se na Memória Descritiva das Actividades da DRM, com especial destaque para as da DRM02:

DRM01Criar condições para uma maior frequência no referente às manutenções periódicas às estações (Estações Meteorológicas Automáticas e Clássicas).
Substituição de alguns equipamentos das Estações Clássicas com particular destaque para as estações dos Aeroportos da Madeira e Porto Santo.
Acções de formação nos locais de trabalho dadas por pessoal do COBE e do CMAE.
Promover conjuntamente com outras UO do IM a instalação de pelo menos mais duas Estações Meteorológicas Automáticas.
DRM02Centro Meteorológico do Aeroporto do Porto Santo: Substituição do pavimento em 2 salas, substituição de persianas das janelas, arranjos e pintura da vedação do parque meteorológico. Colocação de uma protecção no varandim que ladeia o Centro.
Centro Meteorológico do Aeroporto da Madeira: Substituição dos pavimentos, arranjo nas canalizações, loiças sanitárias.
Observatório do Funchal: Substituição dos pavimentos em 4 salas, arranjos e envernizamento do pavimento em 3 salas. Arranjo nos sanitários (homens), substituição de loiças, chão, azulejos de paredes e 2 portas interiores. Substituição da rede de água antiga (50 anos).

Resumindo, sem ovos não se fazem omoletes. Mas de que vale a pena ter os ovos, se não se têm quem os cozinhe???

Confiança congelada

Os mercados financeiros vivem muito da confiança existente na Sociedade. E hoje saiu um indicador importante, o Índice do clima de negócios Ifo, da Alemanha. Este Índice é baseado nas respostas a 7000 inquéritos, efectuados mensalmente a empresas na área da indústria, construção, comércio e retalho. Pergunta-se o estado de negócios actual e as expectativas para os seis meses seguintes. O Índice, que tem vindo a subir sistematicamente nos últimos onze meses, caiu este mês para 95.2, comparados com os 95.8 do mês anterior.

Perguntarão os leitores do blog, o que tem isto a ver com as notícias aqui habitualmente publicadas? É que segundo a Bloomberg, a descida na confiança deveu-se ao Inverno mais frio dos últimos 14 anos, que afectaram gravemente as vendas de retalho e a construção. As temperaturas abaixo da média e a neve pararam a construção, obrigando as empresas a reduzir a contratação. Para o presidente do Ifo, Hans-Werner Sinn há todavia esperança: "The economic recovery is expected to continue when winter is over,"