sábado, 10 de julho de 2010

Contas, como deve ser, do ministro

Ouvi ontem o ministro António Mendonça na rádio e gostei. Mas fiquei logo a pensar como iria um país reagir a contas como deve ser. As palavras do ministro foram cruas e cruéis (realces da minha responsabilidade):

Depois de começar a sua intervenção na Comissão Parlamentar das Obras Públicas a dizer que, tendo em conta o custo de passageiro/ano da Linha do Tua (que atinge os 29 mil euros) "quase mais vale dar um carro a cada um" dos utentes, António Mendonça considerou que "é preciso encontrar sistemas de transportes adaptados às necessidades de cada época, numa base objectiva, que deve ter uma referência económica, ambiental e energética".

Já no passado observamos aqui (1)(2)(3)(4) a barraca que é a linha do Tua. O problema dos ambientalistas não é a linha do Tua, onde aliás a grande maioria deles nunca pôs, nem porá, os pés. O que eles pretendem evitar é a construção da barragem. Aliás, as contas do Mendonça deviam ser feitas para outras barracas nacionais, sabendo por exemplo quanto custou cada utente do Parque Arqueológico do Vale do Côa, nomeadamente em função da energia não produzida?

É por isso que os Media praticamente não deram cobertura a esta notícia. É inconveniente. É difícil interpretar contas tão simples! Mas, se alguém colocar uns mexilhões lá no rio, podem apostar que vão noticiar com grandes parangonas...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Lavagem de cadáveres

Na Bélgica há planos para começar a "lavar" os cadáveres. Em vez de cremarem, que eu suspeito dever causar muitos gases de efeito de estufa, há agora planos para dissolver os cadáveres numa solução caústica, e enfiá-los nos esgotos: próxima paragem, na ETAR. Podem ter dificuldades em acreditar, mas a notícia está aqui.

Quando se pensava que não era possível ser-se mais aldrabado, alguém calculou que uma cremação criava 260 Kg de dióxido de carbono! Agora, num processo conhecido como "resomation", os corpos são tratados com hidróxido de potássio a uma pressão elevada e uma temperatura de 180ºC. Como os ossos resistem a este processo, são depois esmagados entre duas a três horas!!! Há uma empresa comercial por detrás do processo, e aposto que as altas temperaturas são produzidas a partir de energias alternativas, e ainda deve haver a compensação do pouco carbono emitido...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

50ºC na SIC


E isto não pára! Agora foi outro leitor que me enviou um link para uma reportagem da SIC, também sobre a Amareleja. Confesso que não sei quem começou esta confusão, mas nenhum dos meios de Comunicação Social envolvidos (SIC, TVI e jornal i) sai bem na fotografia. A reportagem da SIC começa com o relato dos 50ºC, depois o mais conhecido termómetro da Amareleja marca 46ºC, e o locutor diz que a temperatura se aproxima do recorde lá da terra. Que em rodapé é referenciado correctamente como 47.4ºC, sendo uma delícia aos 1:52 assistir ao relato do jornalista a referenciar 47.3ºC. É de confundir qualquer tele-espectador!

Farmácia Portugal

Aparentemente, a Farmácia Portugal é a farmácia dos célebres 50ºC da Amareleja. Quando tudo fazia crer que não era possível fazer pior que a reportagem da TVI, apareceu o jornal i, para mim claramente o pior jornal do momento! E a reportagem que eles fizeram, e que pode ser consultada aqui (provavelmente será apagada), merece ser citada para a posteridade (realces da minha responsabilidade), pois pior acho que não é possível:

A vila está deserta ao meio-dia. O termómetro da farmácia Portugal regista pelo segundo dia consecutivo a marca 50
(...)
O i foi visitar a vila famosa pelos recordes de temperatura - o último, confirmado pelo Instituto de Meteorologia, foi em 2003, com 47,3 oC. Ontem, pelo segundo dia consecutivo, o já emblemático mostrador da Farmácia Portugal, no centro da vila, atingiu os 50 oC por volta do meio-dia.

Chega-se pela Estrada Regional 385. O termómetro do carro aponta 42 oC, sempre a subir desde Évora. A vila está completamente deserta e à partida não dá para perceber se por falta de gente ou por reclusão. O professor Revez deixa interromper a aula. "Não digo que não marcasse os 50 oC, mas não é verdade de certeza absoluta", atira Maria Angelina Carreteiro, 50 anos. É que se tivesse sido, e isto é de gente que sabe, não se aguentava sair de casa, e elas estão ali.

"Foi sempre assim, os antigos ainda sofriam mais do que nós. Eu ainda andei no calor no campo, de xaile, lenço e manguitos. Agora é que estranhamos o calor", acrescenta Joaquina Piriquita, 51. No lar do centro social da Amareleja, paredes-meias com a casa do povo, o fresco vem das portadas fechadas. Marcolino Correia, 83 anos, aceita falar. Passa os dias entre cassetes de música, auscultadores à séria e desenhos de mulheres que começam sempre com uma lembrança da sua. Saiu da Amareleja aos 20 e voltou em 2000. "O calor a gente já não sente, mas antes o que havia era mais chuva. Carregávamos os fardos de palha debaixo de chuva e trovoada; agora chove pouco ou nada."

dava-LHES o preto É difícil encontrar gente nova, apesar de serem cerca de dois mil habitantes. A vila tem escola básica, mas depois segue-se para Moura. E de qualquer forma é o início das férias. "Quem pode vai para o estrangeiro. Quem fica pega pelas 6 horas, agora anda-se na apanha do melão e da melancia para os lados do Alqueva", explica Joaquina Piriquita. Já a mais velha toda a gente sabe quem é: Chica Ramos. O genro Marcelino Botelho, 75 anos, é o anfitrião da casa. Durante anos foi o único barbeiro na vila, agora há um cabeleireiro moderno em frente à Farmácia Portugal. O negócio vai estando parado, sobretudo na hora de maior calor, e muitos vêm pelo pente zero, que demora a crescer, ri. "Lembro-me de um domingo há 15 anos, acho que foram 48,7 graus, estava na pesca e os peixes nem se mexiam dentro de água", conta numa sala adaptada a barbearia, com uma cadeira das antigas ao centro. "Lembro-me de haver dias de muito calor e muito frio, até de cair neve aí nos anos 40, e isso nunca mais aconteceu. E quando era Verão, era Verão", remata. "Até havia aí um ditado quando se queria castigar alguém: 'O que te desejo é seis meses iguais aos de Agosto'."

Chica Ramos, 98 anos feitos em Junho e que na realidade se chama Francisca Guinapo Arranjado - na vila ninguém se conhece pelo nome próprio, explicam-nos - domina outras expressões. "Com o calor dava o preto a muita gente", explica. "Já eu nunca perdi o algarismo" - nunca desmaiou. E fala da doença de Parkinson quase como se não fosse sua, com uma idade invejável. "O calor? Eu já não tenho idade para aguentar nada", brinca. Mas tem, só que o calor não a deixa sair de casa para se distrair com a "conversinha do passado." Dantes ia para a rua; agora não acha posição em casa, apesar de um dos segredos ser manter tudo fechado como a encontramos, às escuras no sofá da sala. "Íamos mal vestidas, deitávamo-nos no chão, ao pé da porta da rua, comíamos gaspachozinhos."

Pôr cestas com comida a refrescar dentro dos poços é outra das coisas de antigamente: agora o pior é quem não tem ar condicionado e se contenta com a ventoinha. A tarde vai correndo. O termómetro do carro mantém os 42 oC já bateram as seis da tarde. Domingos Silva, 84 anos, também a não parecerem, passa apressado à frente da Farmácia Portugal. "São quase dois quilómetros que faço de casa até ao centro e com este calor não há ninguém a quem dizer bom dia ou boa tarde", puxa conversa. Mas é falta de gente? "Não, está tudo em casa à espera que a sombra tape as ruas. Tinha de ver nas festas de Agosto, nem se consegue andar aqui", garante. Diz que dali a duas horas vão estar uns 50 a jogar malha ao pé da torre do relógio, o momento de convívio de todos os dias. "50 oC? Eu nem olho para o termómetro. Estive em Lourenço Marques, com 50 oC as galinhas morriam nas capoeiras. Para a agricultura é menos mau, as searas só se vão com gelo. E nós estamos aclimatizados."

Nós não. "Que calor", dizemos. "Aqui diz-se 'que calma'", responde.

Climate-gate

Os alarmistas andam todos contentes! Saiu um relatório que branqueia as actividades criminosas e de fraude científica da CRU (Climatic Research Unit), da Universidade de East Anglia, e que se designa por Climate-gate. Pessoalmente tinha a certeza que seria um branqueamento, dado o clima político que se vive no Reino Unido. Nunca eles iriam admitir a verdade de que andam a cometer fraude científica! Mas, por mim, é bom ver Phil Jones voltar ao activo; é sinal de que teremos muitas mais tretas para relatar!

Voltando ao relatório do burocrata Muir Russell, é difícil esquecermos a figura de Sir Humphrey, da série inglesa Yes Minister. A forma enviezada como o relatório foi constituído está a ser completamente desmanchada. Até o suspeito alarmista Guardian desanca na equipa de Jones et al. Roger Pielke descreve aqui como Russell não faz ideia de como funciona o IPCC. Ou como Steve McIntyre refere aqui, a culpa é dos computadores e do email, mas não dos cientistas. E isto são apenas as reacções preliminares... Mas, se alguém se referir à manutenção da qualidade da ciência, invocando este relatório, o próprio Russell balda-se com um esclarecedor (realce da minha responabilidade):

It is important to note that we offer no opinion on the validity of their scientific work. Such an outcome could only come through the normal processes of scientific debate and not from the examination of e-mails or from a series of interviews about conduct.

Aviões solares


A notícia está por todo o lado. Um avião movido exclusivamente a energia solar levantou ontem voo para o primeiro voo nocturno de um avião movido exclusivamente a energia solar. E entretanto já aterrou hoje em segurança, na Suiça. Embora um triunfo da ciência, o seu significado é relativo.

Um painel solar produz cerca de 100 watts por metro quadrado. Mas um avião comercial, como por exemplo o Boeing 747, utiliza tipicamente 140MW de energia num voo normal. Para isso necessitaria de paineis solares num espaço de 1Km x 1.4Km! E isto em termos óptimos, com o Sol a brilhar. Em dias de chuva ou mau tempo, teria que ficar em terra, ou então ter ainda mais paineis solares... E à velocidade a que voa o Solar Impulse, os Açores voltariam a ser determinantes nos voos transatlânticos...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Encontro Ciência 2010

Terminou hoje o Ciência 2010 - Encontro com a Ciência em Portugal no Centro de Congressos de Lisboa. Marcou-me pela positiva, embora talvez os dias de calor tenham motivado de forma diferente a assistência. Algumas das intervenções a que assisti foram particularmente acutilantes, embora na vertente climática claramente marcadas pelas provocações gratuitas...

Uma das intervenções que mais marcou o encontro foi a do Prof. Delgado Domingos, que muitos leitores do blog já conhecem. Teve a virtude de desencadear o interesse dos Media, tendo saído no Correio da Manhã uma notícia interessante, sobretudo pela forma como o Ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, foi obrigado a responder às perguntas do CM, envolvendo a forma como o Instituto de Meteorologia trata os dados meteorológicos (realces da minha responsabilidade):

Correio da Manhã – Como analisa as acusações do Instituto Superior Técnico, que reclama o acesso à informação recolhida pelo modelo de previsão usado pelo Instituto de Meteorologia, acusando-o de não fornecer dados mesmo quando solicitado?

Mariano Gago – Não é possível fazer avaliação científica sem ter acesso a todos os dados existentes. Isto é um grande obstáculo a sermos cada vez melhores e o acesso a essa informação tem de ser resolvido muito proximamente. Este congresso [Encontro com a Ciência e Tecnologia em Portugal, que termina amanhã] veio demonstrar essa urgência.

De que forma será possível fazer-se essa partilha?

A utilização desses dados para efeitos científicos é muito importante. Tem de ser criada uma plataforma de avaliação para permitir que os diferentes dados recolhidos estejam disponíveis.

Existem outras áreas onde melhorar essa colaboração?

Na avaliação dos dados recolhidos pelos vários modelos sobre fenómenos extremos. A cooperação terá de ser internacional, até para se ter mais fenómenos para analisar.