terça-feira, 10 de janeiro de 2012

APREN dá chouriço; nós damos o porco

A APREN colocou hoje cá fora o seu balanço das renováveis de 2011, e que ecoou logo pelos Media... A APREN diz que as renováveis pouparam €721 milhões em importação de combustíveis. Como é habitual, não explicam como chegaram a estas contas...

Mas as contas inversas são fáceis de fazer! É só pegar nos dados da REN e combiná-los com os preços dados pela ERSE. Estes últimos são os valores médios do ano de 2011 em Novembro, pelo que certamente muito próximos dos valores finais do ano.

Começando pela eólica, podemos verificar que em 2011 foram produzidos 9005 GWh, o que a um preço médio da tarifa feed-in de 94.5 € por MWH, dá logo 850 milhões de euros! Na energia solar fotovoltaica foram produzidos 261 GWh, que multiplicados por 342 € por cada MWh, dá mais 89 milhões de euros. Na hídrica PRE foram mais 1021 GWh, que a 91.3 €/MWh representam mais 93 milhões de euros. O resto da PRE renovável é mais difícil de catalogar, mas se conseiderarmos que existiram 12853 GWh de PRE renovável, e descontando a eólica, solar e hídrica, ficamos ainda com 2566 GWh para contar. Se considerarmos o valor de 95 €/MWh dados para a cogeração renovável, então soma-se mais 244 milhões de euros.

Ou seja, toda a PRE somadinha dá a módica quantia de 1277 milhões de euros de custos. E a APREN diz-nos que poupamos 721 milhões??? Pois, eles dão um chouriço, e nós damos-lhes o porco... Na verdade, estas contas rápidas demonstram um sobrecusto das renováveis de cerca de 556 milhões de euros, um valor que se aproxima do valor que o Ecotretas havia previsto para 2011, superando por uma margem maior a previsão que a EDP havia efectuado. Todavia, como a maior parte da energia eólica é produzida de madrugada, quando o custo é menor, o sobrecusto real tenderá a aproximar-se mais do valor que havia previsto em Outubro...

Notem-se mais dois aspectos interessantes: primeiro, que o custo da tarifa feed-in das eólicas subiu em 2011, ao contrário da visão dos seus defensores, que advogavam que a energia eólica estava cada vez mais barata; segundo, que a APREN definitivamente não sabe fazer bem as contas - vejam as diferenças das mesmas percentagens, quando comparadas com a análise da Quercus (eg. 17.6% vs. 17.8%, 25.1% vs. 25.4%)...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Erro trágico de António Costa Silva

Vários leitores alertaram-me para uma entrevista de António Costa Silva, presidente executivo da Partex Oil and Gas, petrolífera da Fundação Calouste Gulbenkian, ontem no Público, e que teve referência na capa do jornal mais alarmista de Portugal. O António foi já referenciado aqui no passado, e enquanto fala daquilo que sabe, mostra-se uma pessoa lúcida. Volta à carga com o desperdício que constitui o não aproveitamento do gás natural do Algarve, com a prospecção que está a ser feita ao largo de Peniche, e fala naturalmente do gás shale que está a revolucionar países como os Estados Unidos e a China, mas que tarda em chegar à Europa, e a Portugal, que misteriosamente ele nem sequer referencia, quando se sabe das nossas possibilidades de extracção desse gás.

O problema está quando Costa Silva se mete por aquilo que não domina. As duas alarmistas jornalistas do Público destacam para título do artigo a seguinte frase do presidente da Partex Oil and Gas: "É um erro trágico se o país agora destruir o cluster das energias renováveis". O erro trágico de António Costa Silva é que parece não saber fazer as contas: diz que as renováveis representam apenas 15% dos CMECs, mas esse é um valor retirado das mentiras do estudo da APREN. Mas todos sabemos que a miríade de custos de suporte das eólicas, que incluem pelo menos a garantia de potência e o custo das novas barragens, se ficam a dever ao excesso que temos de eólicas! Até o Mexia reconhece que o valor é pelo menos de 21%, pelo que sabemos que é muito maior, quando se somam todas as parcelas que lhe são imputáveis.

O António fala ainda de muitas meias verdades, e pelo que diz percebe-se que as referências a questões como as dos enormes subsídios dos combustíveis em determinados países, carros eléctricos, cimeiras do Clima, subidas dos mares, etc., são de uma pessoa que apenas debita soundbytes... Neste último aspecto revela-se a incultura científica deste personagem. Interessa perguntar-lhe quando pensa ele que o que ele diz vai acontecer (realces da minha responsabilidade)?

A maioria dos cientistas é clara quanto ao que se está a passar com o clima. Não podemos esquecer que 1/3 da população mundial vive entre o nível do mar e os nove metros do degelo da Gronelândia e da Antártida são suficientes para fazer subir o mar em seis metros. E depois na altura, fazemos o quê? Arranjamos uma jangada para salvar as coisas?

Quando os estudos dos cientistas que ele refere afirmam que a subida dos mares será no máximo de 59 cm este século, e quando se sabe que a subida está a desacelerar, e que os cientistas andam entretidos a esconder esse facto, percebe-se logo quanto valem as afirmações deste António...

Entretanto, verdadeiramente mais interessante foi a entrevista de Henrique Gomes ao Jornal de Negócios. Não está integralmente online, mas o resumo disponível não deixa margens para dúvidas:

Henrique Gomes quer cortar ganhos dos produtores eléctricos. Negociar "é uma via". Mas Estado pode tomar "uma decisão unilateral e soberana".

O secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, faz um balanço "muito positivo" dos primeiros seis meses em funções. Em entrevista ao Negócios, indica que a privatização da EDP não impedirá o Governo de tomar medidas para cortar "margens excessivas" no sector.

No resto do artigo, Henrique Gomes, faz a previsão do terramoto energético que aí vem. A energia ao serviço da economia e famílias, não pode ser como actualmente, em que a energia está por exemplo a prejudicar a indústria exportadora.... Mesmo contra a imposição dos produtores, parece que o Estado vai impor o interesse público, mesmo que sejam precisas decisões unilaterais e soberanas. E ele promete abalo até ao final do mês!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Warme Winter

O leitor Horst Stricker enviou-nos um excerto muito interessante do livro Kalendergeschichten ("Histórias de Almanaque"), de Johann Peter Hebel. O texto original pode ser visto neste exemplar do Google Books, nas páginas 90 e 91. Horst Stricker teve ainda a amabilidade de nos traduzir o texto, que revela que também no passado existiram alterações climáticas, Aquecimento Global, e coisas que tal. Continuo aqui no Ecotretas a referenciar estas importantes notas históricas, pois os actuais alarmistas bem gostariam que elas desaparecessem. E a sonhar com um Inverno bem quentinho, coisa que nem os nossos amigos brasileiros parecem ter...

Invernos Quentes (1808)
de Johann Peter Hebel(1760-1826)

O inverno quente do ano 1806-1807 causou muita surpresa e fez bem aos pobres; e aquele e o outro, que agora saltam nos seus sapatos de criança, passado sessenta anos e agora como homem velho, sentado no banco da lareira e contando aos seus netos,que ele também uma vez era criança como eles, que no Anno 6 quando os Franceses estavam na Polónia, entre o Natal e o Ano Novo comeu morangos a apanhou violas. Tempos assim são raros, mas não fora de vulgar, assim se conta nas crónicas antigas há 700 anos, 28 anos semelhantes.

No ano 1289, em que ainda ninguém sabia de nós, era tão quente que as donzelas na altura de Natal e o Dia de Reis, enfeitaram-se com coroas feitas de violas, escovinhas e outras flores.

No ano 1420 o inverno e a primavera eram tão amenos que em Março, as árvores já tinham passado de flor. Em Abril já haviam cerejas e as videiras estavam em flor. Em Maio já haviam uvas a amadurecerem. a primavera 1807 não conseguimos elogiar coisas assim.

No inverno 1538, as meninas e os rapazes conseguiram beijarem-se no espaço verde, se não só em castidade, o calor era de tal maneira que no Natal encontrou-se tudo em flor.

No primeiro mês do ano 1572 rebentaram as árvores e em Fevereiro os pássaros estavam a chocar.

No ano 1585, na Páscoa amadureceu o centeio.

No ano 1617 e 1659 no mês de Janeiro cantaram as cotovias e os tordos.

No ano 1722 a partir de Janeiro deixou-se de aquecer as casas.

No ano 1748 foi o último e invulgar inverno quente.

Em resumo: é melhor rebentarem as árvores no dia de São Estevão (26.12.), do que ter sincelos no dia de São João.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Windfloat: mais detalhes da fraude

Já me referi, há mais de dois meses, à fraude que constitui o Windfloat. Desde então fui reunindo informação escondida através da Internet, e que revela mais sobre esta fraude/esquema. Se o projecto é assim tão interessante, seria de esperar que existisse interesse em mostrá-lo. Mas é exactamente o contrário: tudo parece ser feito para o esconder do público, para que não se descubram as Verdades Inconvenientes sobre ele.

Um dos documentos mais interessantes disponíveis na Internet é este artigo do Journal of Renewable and Sustainable Energy, de Roddier et al. Sendo um paper submetido em Janeiro de 2010, o primeiro aspecto interessante a registar é que não tem qualquer referência à EDP, e apenas uma vez se refere a Portugal. Isto apesar da assinatura de um Memorandum of Agreement quase um ano antes, com a EDP! Em vez disso, referenciam repetidamente os estudos ao largo dos Estados Unidos! Noutro documento uns meses antes, a referência a Portugal e EDP é marginal e restrita ao último parágrafo. Da equipa da EDP alocada ao projecto, nem se ouve falar...

Uma das conclusões mais importantes do estudo de Roddier et al., referenciada em pormenor na página 14 e nas Conclusões, é o facto que a distância entre o local de construção da estrutura Windfloat, e o local do parque eólico offshore, ter que ser a menor possível. Compreende-se, dado que a velocidade de reboque é muito lenta, e porque para um parque minimamente importante teriam que ser efectuadas várias dezenas de rebocamentos, naturalmente uma por cada estrutura. Por isso é fácil de perceber que não terá qualquer impacto na designada Economia do Mar de Portugal, e apenas serviria para esturricar dinheiro nosso.

O projecto também não é assim tão pioneiro quanto a EDP, e os papagaios dos Media nacionais, o querem fazer parecer. Há mais de 60 parques eólicos offshore neste momento, dos quais apenas 7 tem um gerador. Destes, apenas um tem potência inferior! Desses que têm apenas um, há um que tem um gerador de 4.5MW e outro com 5MW de potência, portanto muito melhores que a tecnologia Windfloat. Do total dos parques, apenas cerca de 10% tem carácter de demonstração, como o Windfloat, o que demonstra como não somos também pioneiros neste domínio! Uma visualização no Google Maps revela que a quase totalidade dos parques eólicos offshore se situa no norte da Europa, e no extremo Oriente, entre o Japão e a China. Para mais referências sobre as diferentes tipos de estruturas, esta é uma boa introdução.

Começam também a surgir algumas reportagens sobre a construção da Windfloat. No primeiro vídeo abaixo podemos ver uma sequência de imagens relativa à construção, enquanto no segundo vídeo se pode observar mais alguma informação complementar:


O que vai acontecer daqui para a frente também é essencialmente desconhecido. Neste documento, percebe-se que vai decorrer um período de 12 meses de monitorização, testes e optimização do protótipo. Depois desse período está prevista uma fase pré-comercial, com uma turbina de pelo menos 5MW. A fase comercial está prevista para um total de 150 MW. Continuaremos, pois, a acompanhar este elefante branco...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Parques eólicos suspensos

Um leitor fez-me chegar uma notícia agradável, em que se afirma que o Governo suspende atribuição de licenças para novos parques eólicos. Antes de mais, o Comunicado do Conselho de Ministros é:

3. O Governo decidiu suspender, com efeitos imediatos, a atribuição de potências de injeção na Rede Eléctrica de Serviço Público (RESP), ressalvando a possibilidade de poderem ser excepcionados casos de relevante interesse público, em situações a regulamentar por resolução do Conselho de Ministros.

Esta decisão decorre das orientações de política energética previstas no Programa do Governo e que apontam para a necessidade de ponderar e reavaliar o enquadramento legal da produção de eletricidade em regime especial.

Tudo isto decorre, em meu entender, de uma profunda revolução, que está em curso. Na segunda revisão do memorando de entendimento com a Troika, ficou definido que até ao final do mês de Janeiro, será analisado o regime de apoio aos produtores de energia em regime especial, bem como possíveis reduções na tarifa. E ao contrário do título da notícia, são muitos os produtores afectados, incluindo pelo menos também a energia solar, cogeração, biomassa e microgeração... Tudo parece indicar que isto vai endireitar! Entretanto, no mesmo comunicado do Conselho de Ministros, houve um outro ponto que me chamou a atenção. Deve ser tema para próxima investigação do Ecotretas:

2. O Conselho de Ministros decidiu também declarar a resolução, por incumprimento, de seis contratos de investimento e de concessão de benefícios fiscais celebrados pelo Estado Português e as seguintes empresas: Itarion Solar, Lda., e Agni Inc - Desenvolvimento de Sistemas para Energias Alternativas, S.A., Faurecia - Sistemas de Escape Portugal, Lda., Peugeot Citroen Automóveis Portugal, S.A., Têxtil Manuel Gonçalves, S.A., Itarion Solar, Lda., Agni Inc - Desenvolvimento de Sistemas para Energias Alternativas, S.A., e Globe Motors Portugal - Material Eléctrico para a Indústria Automóvel, Lda.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Aquecimento Esclarecido

"Aquecimento Esclarecido" é o nome de um espectáculo concebido pelo nosso conhecido David Marçal. O artigo que saiu no De Rerum Natura não é claro nos seus motivos. Foi um leitor atento que me apontou na direcção correcta. A estupidez é bem evidente quando se propõe uma peça com a motivação de "satirizar a falta de fundamentação científica daqueles que negam a influência humana no aquecimento global":

Com criatividade e humor à mistura, a história insinua que são as árvores que provocam o efeito de estufa, que os furacões são causados pelos geradores eólicos e que uma boa camada de dióxido de carbono pode ser o nosso melhor protector solar.

O David Marçal devia saber melhor! É com isto que pretende promover a cultura científica? O químico devia saber que as árvores adoram o Aquecimento Global, especialmente a parte do CO2 acrescido, aliás como já demonstraram cientistas portugueses... O David devia saber que a intensidade dos furacões está em níveis mínimos; será que isso é causado pelas eólicas, que estarão a retirar a energia do vento? E por insistir no CO2, talvez o Marçal queira, em Coimbra, dar um pulito ali ao lado ao Coimbra Shopping, à secção da restauração, e verificar como 950 ppm de CO2 são considerados uma qualidade do ar excelente...

Enfim, a prova provada de como a Ciência hoje em dia é uma palhaçada. O que eu não sabia é que a Exxon-Mobil Oil tinha oferecido dez mil dólares a cientistas que encontrassem erros e imprecisões no relatório do IPCC. Como eu já fiz a minha parte com o Horngate, vou ver se o prémio ainda estará de pé...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O paradoxo da poupança

Todos devem saber que os preços da electricidade voltaram a subir neste início do ano. Todos os consumidores sentiram também nos últimos meses o aumento do IVA. Mas porque aumentam os preços da electricidade? Para a ERSE, há três factores que justificam esse aumento:
  • Evolução do custo das matérias-primas energéticas e da energia elétrica nos mercados internacionais
  • Custos da Produção em Regime Especial (PRE)
  • Evolução do consumo de energia elétrica
Este último ponto é difícil de percepcionar, sem ler os detalhes (realces da minha responsabilidade):

Para o estabelecimento das tarifas de 2012, estima-se que o consumo de energia elétrica se situe cerca de 3% abaixo do valor homólogo de 2011.

Parte considerável dos custos a recuperar pelas tarifas são custos fixos que não variam com o consumo de energia elétrica. Estes custos correspondem, essencialmente a: (i) investimento em infraestruturas de redes; (ii) custos de interesse económico geral e de política energética e (iii) ajustamentos tarifários referentes a anos anteriores.

Nessa medida, quando há uma diminuição do consumo de energia elétrica verifica-se o aumento destes custos por unidade de energia elétrica.

Ora, por aqui é fácil perceber como aqueles que nos dizem para poupar energia estão errados! Porque quanto mais pouparmos colectivamente, mais pagaremos? É esse o paradoxo: se pouparmos mais kWh, pagaremos mais pelo kWh. E se não poupássemos, não passaríamos a pagar menos?

Cúmulo do paradoxo: Atitudes como as das gravatas, da Ministra Cristas, contribuem para que os Portugueses paguem mais pela electricidade!