Após um
artigo inicial sobre David Melgueiro, e
outro sobre as explorações procurando a Passagem do Nordeste antes de 1660, vamos neste abordar a cartografia disponível à época da possível viagem de Melgueiro.
Por volta de 1490, o cartógrafo alemão
Henricus Martellus produziu um mapa do Mundo conhecido até então, visível na primeira imagem abaixo, onde é visível uma faixa de água no norte do continente asiático, indiciando assim a possibilidade da existência de uma passagem do Nordeste. Martellus produziu ainda mais mapas, visíveis neste
link. No início do século XVI, em 1507, o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller produziu um
mapa do Mundo contorverso. Uma análise detalhada da sua obra pode ser
consultada aqui. No segundo mapa visível abaixo (retirado
daqui), pode ver-se como também é dada a possibilidade de existência da Passagem do Nordeste.
Qualquer um destes mapas, bem como os de
Martin Behaim, ao serviço de Portugal na altura, sofrem todavia fortes influência de
Ptolemeu, e da sua obra
Geographia.
Particularmente relevante neste domínio foram os mapas do cartógrafo
Gerardus Mercator. Em 1569 produziu um mapa (imagem abaixo retirada
daqui; maior detalhe
aqui) com a sua
projecção. Embora com notáveis erros em determinados locais do globo, o contorno do norte da Ásia revela-se aproximado com o real, excepto sobretudo na região mais a este da Sibéria. A Passagem do Nordeste é dada como um facto:

Em 1570,
Abraham Ortelius, encorajado por Mercator, compilou o primeiro atlas moderno do Mundo,
Theatrum Orbis Terrarum. Como se pode observar na imagem seguinte, também aqui toda a costa norte da Ásia é dada como navegável:

Na
Biblioteca Nacional da Rússia encontramos mais uns mapas importantes. O
primeiro mapa abaixo (imagem retirada
daqui), de Abraham Ortelius, é dado como sendo de 1570, mas
noutra fonte é dado como sendo de 1584. No mapa é perfeitamente visível o estreito de Anian, e é clara a possibilidade de contornar a Sibéria pelo norte. O
segundo mapa, de
Jodocus Hondius, de 1600, é baseado no mapa de Mercator de 1569, incorporando a expedição de Barents de 1595-1597. O
terceiro mapa, de
Hessel Gerritsz, é de 1613, e mapeia a Rússia, e a sua costa norte, incluindo também Novaya Zemlya. Pormenor importante sobre esta sequência é o facto de todos estes mapas serem feitos por Holandeses, ao serviço dos quais Melgueiro se encontrava.
Ainda antes da viagem de Melgueiro, há a destacar o trabalho do cartógrafo
Willem Blaeu. Também ele um holandês, foi em 1633 nomeado cartógrafo oficial da
Companhia Holandesa das Índias Orientais. Em 1635 produziu o
Nova totius terrarum orbis geographica ac hydrographica tabula, visível abaixo:

Note-se como este mapa é muito mais real que o de Mercator e Ortelius. Blaeu produziu posteriormente mapas mais detalhados, também fruto do seu trabalho na Companhia. Na primeira das imagens abaixo (duas primeiras imagens retiradas
daqui),
de 1638, vemos em grande detalhe a costa norte da Rússia. Na segunda imagem, num
mapa de 1640, podemos observar toda a extensão do mar Árctico. No terceiro mapa (imagem retirada
daqui), também de
1638, podemos observar o extremo este do continente asiático, com mais alguns detalhes que os mapas anteriores.
O mistério envolvendo estes mapas, bem como outros, é abordada de forma interessante
neste artigo. Em qualquer caso, é seguro dizer-se que David Melgueiro teria acesso a esta informação quando terá eventualmente efectuado a Passagem do Nordeste, em 1660.
Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro:
ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html