terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O criminoso Peter Gleick

Peter Gleick é um cientista alarmista, que já testemunhou várias vezes no Congresso Americano. Agora, e depois de uma investigação cerrada por parte dos cépticos, admitiu que foi ele quem se fez passar por terceira pessoa, roubando documentos a uma instituição privada (Heartland Institute), e passando-os aos lobos verdes, que sedentos de sangue, não hesitaram em espalhar essa informação, a mais substancial da qual é reconhecidamente falsa.

É isto que os supostos cientistas do clima e das alterações climáticas andam a fazer. A manipular informação. A roubar a informação da Resistência. A criar documentos falsos. Porque eles próprios sabem que têm que começar a cometer outros crimes, para esconder os crimes que andaram a cometer nos últimos anos!!! E que ainda nos tentavam dar lições de moral?

Por cá, os papagaios do costume embandeiraram em arco! Agora, esta notícia provavelmente só terá uma referência nas primeiras páginas do Correio da Manhã, aquelas dedicadas aos crimes do dia-a-dia. Mas não tenham dúvidas: este caso vai ter provavelmente ainda mais impacto que o Climategate! Vai mostrar a verdadeira natureza desta Ciência da treta, e dos seus pregadores. Sigam para já o thread no Watts Up With That, e esperem outras novidades brevemente...

Actualização: Este criminoso era ainda é presidente da Task Force em Ética Científica, da AGU (União de Geofísica dos Estados Unidos)
Actualização II: O criminoso já andou por território nacional, a vender o peixe na Fundação Gulbenkian...
Actualização III: O crime de Peter Gleick é de Wire fraud, punível com pena de prisão até 20 anos...
Actualização IV: Também já não vai aquecer o lugar na NCSE...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Palhaçada de Esclarecimento

Há cerca de um mês havíamos referido a estranheza acerca de um espectáculo concebido por David Marçal, Aquecimento Esclarecido. Agora, um leitor apontou-nos na direcção de dois vídeos que resumem o espectáculo. Os meus receios iniciais saíram muito reforçados, tal é a quantidade de disparate dito. Para se perceber o que vai na mente destes cientistas, tentem ver até ao final os dois vídeos. Eu só vi mesmo para me certificar de que é uma palhaçada completa, de início ao fim!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Poluição solar com chumbo

Um leitor chamou-nos a atenção para um artigo de Perry Gottesfeld e Christopher Cherry, da Universidade de Tennessee, que apareceu na edição de Setembro passada da revista Energy Policy. Eles evidenciam aquilo que já repetidamente aqui referimos: que a energia solar não é tão verde quanto isso!

Nesse artigo, eles referenciam que a energia solar que depende da existência de baterias, tem o potencial de libertar mais de 2.4 milhões de toneladas de poluição de chumbo, na China e Índia. Segundo o artigo, em 2022 a poluição de chumbo pode ser equivalente a um terço da actual produção de chumbo!

O estudo refere ainda que nos países referidos, China e Índia, a quantidade de chumbo que resulta em poluição é absolutamente assustadora, com 34% na China e 22% na Índia! Tal deriva das actividades de mineração, manufactura e reciclagem, entre outras, como é visível na imagem acima. Não admira pois que estejam a ser fechadas muitas dessas instalações...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A falácia da Balança Comercial

É um tema recorrente, e o Diário Económico voltou com ele à carga recentemente. Foi igualmente utilizado na peixeirada pelo Carlos Pimenta. É a ideia de que as energias renováveis contribuem para diminuir o défice da balança comercial, por se evitar a importação de combustíveis. O artigo do DE é tão tendencioso que termina com um "só assim será possível continuar a diminuir a dependência e a factura energéticas do País."

Nada de mais errado! Para o exemplificar, peguemos num dos melhores exemplos da demagogia verde: a central da Amareleja. Os verdes adoram-na, esquecendo-se que, por exemplo, para a construção desta central foi autorizado o abate de 414 azinheiras adultas e 319 jovens. A central da Amareleja tem uma potência instalada de 45.78MW, correspondente a 2520 painéis. Era suposto produzir 93 GWh por ano, mas em 2010, a central produziu apenas 88 GWh, dos quais 61 corresponderam à Acciona, e os restantes à Mitsubishi. Tudo isto porque a Mitsubishi tem uma participação de 34.4%.

Quanto é o valor pago pela energia da Amareleja continua a ser um segredo bem guardado! O valor dado neste documento da Assembleia Municipal de Moura continua a ser o valor mais fidedigno que encontrei até hoje, de 0.317€ por kWh.

O confronto com outros valores denota que o valor é provavelmente mais elevado. Segundo este documento da ERSE, em 2010 produziram-se 166.5 GWh de origem fotovoltaica. Tal revela que a central da Amareleja foi responsável por quase 53% desse total. Segundo o mesmo documento da ERSE, o preço de referência do mercado regulado foi em 2010 de 39.20 €/MWh, enquanto o preço médio da energia fotovoltaica foi de 329.80 €/MWh.

Considerando apenas o caso da Amareleja, e uma produção de 88 GWh em 2010, as contas são fáceis de fazer: se não existisse central fotovoltaica, teríamos que comprar 88 GWh a 39.20 €/MWh, o que dá um custo de 3.450 milhões de euros. Note-se que este é o custo da energia, e não dos combustíveis importados... Enquanto isso, para produzir os mesmos 88 GWh, e considerando o custo de 317 €/MWh, pagou-se aos donos da central da Amareleja cerca de 27.896 milhões de euros! Mas, se se utilizar o valor médio da ERSE, então o valor sobe para 29.022 milhões de euros. Este último valor está muito mais próximo dos 29.975 milhões de euros inscritos nas contas anuais da Acciona, relativamente à sua participada "Amper Central Solar Moura, S.A.".

Resumindo, para evitarmos pagar menos de 3.45 milhões de euros a estrangeiros, entregamos 29.022 milhões de euros a estrangeiros, neste caso à Acciona e Mitsubishi. Noutros projectos é a mesma coisa, e se não é a empresas estrangeiras, é para o serviço da dívida. E este ano a história é semelhante, embora o custo do preço de referência do mercado regulado tenha subido de 39.20 €/MWh para 51.84 €/MWh. Como é que isto beneficia a nossa balança comercial, ultrapassa-me...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Peixeirada no Prós e Contras

A Fátima Campos Ferreira, no Prós e Contras de ontem, debateu com vários participantes, o tema do "Insustentável Custo da Energia". O vídeo do programa está disponível nestes links, primeira parte, e segunda parte. Também já está disponível no youtube, com a primeira de dez sequências abaixo.

O programa foi uma verdadeira peixeirada. O pior de todos foi o habitual Carlos Pimenta, que chegou a gritar e exaltar-se na parte final do programa (a partir do minuto 56:05 do segundo vídeo). Quem assim faz perde toda a credibilidade! Também exibiu os gráficos do costume, já aqui no blog completamente descredibilizados. Tal é o exemplo do custo dos MWh da energia eólica, nos 74 €/MWh (minuto 21:11 do primeiro vídeo), que desmontamos aqui, e que actualizamos aqui.

Particularmente mal esteve também Patrick Monteiro de Barros! Nem sequer iniciou a defesa da sua dama, o nuclear, com medo da mesa oposta... Ele, como todos os restantes, já perceberam que o nuclear seria igualmente um erro enorme em Portugal! No meio, por diversas vezes, a Fátima Campos Ferreira ainda tentou puxar umas palmas da audiência, para as renováveis... Mas ninguém bateu palmas!!! Mas quem deve ter ficado com as orelhas a arder foi o António Mexia, sucessivamente referido, mas convenientemente ausente...

Resumindo, o que ninguém explicou mesmo é como se baixa a factura! E como se pode ver pela reacção do público, ao minuto 36:36 do segundo vídeo, o que o Zé e a Maria queriam era baixar a tarifa da electricidade! Mas era tão fácil explicar essa parte... Considerando que há cerca de 6 milhões de consumidores de energia doméstica, devia-se:

  • Acabar com as tarifas feed-in das eólicas e solar. Representaram cerca de 556 milhões de euros em 2011. Dá uma poupança média de 7.72 euros por mês.
  • Acabar com as tarifas feed-in para a Microgeração, a forma mais anti-social de geração de electricidade. Custa cerca de 16 milhões de euros por ano (pag. 33 deste documento da ERSE), o que dá 0.22 euros por mês de poupança média.
  • Acabar com as tarifas feed-in para a Cogeração não renovável. É uma poupança de mais 290 milhões de euros (pag. 33 deste documento da ERSE), o que daria a cada consumidor uma poupança mensal de 4.03 euros.

Estas três simples medidas dão um total de poupança mensal de 11.97 €, em média para cada consumidor. E como se pode ver aos 40:20 do segundo vídeo, os Portugueses estão perfeitamente de acordo que estes "direitos adquiridos" têm igualmente que acabar! Na factura exemplo dada no Prós e Contras, no valor de 84.76 €, tal representaria uma poupança de mais de 14%. Era assim tão difícil explicar isto???



Nota: A ERSE resolveu apagar o documento que referencio neste artigo... O que terão eles a esconder??? Podem ver que ele até ainda é referenciado nesta pesquisa do Google, sendo ainda visível um previsualização desse PDF, podendo-se igualmente confirmar a sua referência noutros sites da Internet... Se alguém precisar, tenho cópia.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Melgueiro e as condições meteorológicas excepcionais

Nos quatro posts passados sobre David Melgueiro, abordamos primeiro o relato da suposta viagem, depois as tentativas anteriores, bem como a cartografia da época. Finalmente, neste post abordamos outros factores que podem indiciar que a Passagem era susceptível de ser concluída com êxito. A sequência completa desta investigação de David Melgueiro está disponível aqui, estando a versão em inglês disponível aqui, tendo sido igualmente publicada no Watts Up With That.

Do último post destacamos novamente Damião Peres, que referiu na sua "História dos descobrimentos portugueses" de 1959, a "eventualidade de terem existido condições meteorológicas excepcionais". Foi esta frase que me lançou nesta cruzada!

Sabia bem que não havia registos de temperaturas fiáveis à época. Mas sabia que haviam sido calculadas temperaturas para esse século pela dendrocronologia. De todos os trabalhos até hoje, há um que é dos mais referenciados na comunidade científica: "Annual climate variability in the Holocene" de Keith R Briffa, publicado em 2000 na Quaternary Science Reviews, e disponível aqui em PDF. Da análise visual que se pode fazer das médias de temperaturas que Briffa publicou na Figura 1 do seu paper, visível no gráfico abaixo, podemos ver que há efectivamente por volta de 1660 uma subida de temperaturas:


Sabia que Steve McIntyre já havia analisado estes estudos, e neste artigo encontrei informação importante para contextualizar o estudo de Briffa, bem como os dados originais deste. A importância deste trabalho é que a média de Briffa é chamada de "Northern Chronology Average", porque é obtida a partir de séries a latitudes elevadas. Tais temperaturas representam pois uma boa estimativa das temperaturas experimentadas ao longo da História, na zona por onde se faz a passagem do Nordeste. Daqui facilmente cheguei ao gráfico seguinte, utilizando os dados médios compilados por Briffa:


Aí se verifica que o ano do início da viagem de David Melgueiro, mas sobretudo os anos imediatamente anteriores, foram anos com temperaturas, no norte do hemisfério norte, claramente superiores à média. Aliás, foram as temperaturas mais elevadas em cerca de dois séculos! Tais temperaturas poderão ser uma prova de que terão existido as "condições meteorológicas excepcionais" de que Damião Peres falava.

Para uma melhor contextualização dos registos da Passagem do Nordeste, na imagem anterior anotei as datas mais relevantes da Passagem do Nordeste. Particularmente relevante são os anos frios experimentados por Barentsz, mas que mesmo assim ainda conseguiu contornar a parte norte da ilha de Novaya Zemlya, não muito longe do Cabo Chelyuskin, a parte mais a norte da Ásia. Note-se que as temperaturas experimentadas por Melgueiro terão sido melhores que as do próprio Nordenskiöld, que também teve a seu favor, nos seus dois anos de viagem, temperaturas acima da média...

Esta evidência não prova todavia que a viagem de David Melgueiro se tenha realizado. Apenas a torna mais provável, segundo as próprias palavras de Damião Peres. Os dados concretos praticamente não existem, e um manto de secretismo parece ter envolto esta história. Buache queixava-se mesmo que registos holandeses da suposta viagem não estavam disponíveis. Quem sabe, as provas definitivas estão aí algures...

Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro: ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html

Dados que indiciam possibilidade de viagem de Melgueiro

Este é o quarto episódio na saga da análise da possibilidade da Passagem do Nordeste ter sido efectivamente realizada por David Melgueiro. Depois de termos introduzido a viagem, verificado os antecedentes, e a cartografia disponível, e antes de passarmos ao post final, analisaremos neste outras evidências que permitem equacionar a possibilidade da realização da viagem.

Edmund Burke, um autor irlandês, no seu Annual Register de 1760, descreve outros pormenores que evidenciam como uma passagem do Nordeste, e a viagem de Melgueiro, era possível:

This testimony is confirmed by several collateral proofs of a north passage to India; the captain aud crew of a vessel called the Epervier, who having suffered shipwreck in 1653, near the islands of Japan, were thirteen years prisoners at Corea, affirm that many of the whales, which they saw in the sea between Corea and Japan, had hooks and harpoons in them belonging to the French and Dutch, who generally fish for these animals at Spitzbergen, the northern extremity of Europe.

Burke vai mesmo mais longe, avançando com relatos da época:

Capt. Wood also reports, in 3 paper published before he performed his voyage, that two Dutch vessels had proceeded as high as lat. 89, which is within one degree of the pole, and there found the sea free and open, though of an unfathomable depth, as appears by four of their journals, which, though separately kept, concurred in this fact, Wood adds, that a Dutchman of great veracity had assured him, that he had even passed under the pole, and found the weather as warm as at Amsterdam. Nor will this appear strange, when it is considered that there being no ice in this part, for the reasons already assigned, the Sun must necessarily give a considerable warmth to the air, by remaining so long above the horizon: so that, upon the whole, the reality of a passage through the North Sea to India seems to be a fact supported by every kind of proof that the subject will admit, except the living testimony of mariners who have made the voyage.

Este último texto é igualmente relatado por Johann Reinhold Forster, no seu livro History of the voyages and discoveries made in the North, nas páginas 426-427.

Sobre o Inverno de 1660-1661, há ainda um relato muito interessante do diário de Samuel Pepys, onde ele relata um Inverno particularmente quente, embora relativo ao Reino Unido, e que poderá ter contribuído para reunir as condições para a viagem de Melgueiro:

It is strange what weather we have had all this winter; no cold at all; but the ways are dusty, and the flies fly up and down, and the rose-bushes are full of leaves, such a time of the year as was never known in this world before here.

Todo este enquadramento permitiu a alguns historiadores equacionar a possibilidade de que esta viagem de David Melgueiro tenha sido efectivamente possível. Talvez a mais reconhecida dessas opiniões seja a de Damião Peres, que na sua "História dos descobrimentos portugueses" de 1943, nos descreve (com realces da minha responsabilidade):

Viagem de David Melgueiro sob bandeira holandesa
Em 1701, o oficial da marinha francesa La Madelène, que se achava em Portugal ao serviço da diplomacia do seu país, como agente secreto, comunicou ao Conde de Pontchatrain sensacionais notícias relativas a uma viagem do Japão para Portugal, realizada, através do Oceano Ártico cerca de quarenta anos antes, por um navio holandês cujo comando era exercido pelo capitão português David Melgueiro. A dita embarcação, que se chamava O Pai Eterno, saíra do Japão em 14 de Março de 1660, correra a costa da Ásia para o norte, atingira cerca de 84° de latitude setentrional, e daí fora até às vizinhanças da Spitzberg, donde, passando entre esta ilha e a Gronelândia e por oeste da Escócia e da Irlanda, viera demandar a foz do rio Douro. No Porto veio a morrer, por 1673, o dito capitão português, como testemunhava um marinheiro do Havre, que aí então ainda o vira.
A carta de La Madelène onde tais informações se encontravam, datada de 14 de Janeiro de 1701, foi publicada em 1853 pelo geógrafo Filipe Bouache numa memória intitulada Considérations geographiques et physiques sur les nouvelles découvertes au Nord de la grande mer appellée vulgairement la Mer du Sud avec des cartes qui y sont relatives, cuja substância se repetiu no ano seguinte num artigo das Memoires de Mathematique et de Physique tirées des registres de l'Académie Royale des Sciences.
Publicando a referida epístola, Buache mostrou-se convicto de que Melgueiro descobrira de facto uma nova via de comunicação entre os oceanos Pacífico e Atlântico - a chamada passagem de nordeste - percorrendo o Ártico de leste a oeste, após ter ali penetrado pelo estreito que separa a Ásia da América, estreito que ele, Buache, vira representado num mapa português, existente em Paris, desenhado em 1649 pelo cartógrafo Teixeira.
A opinião de Buache não logrou geral aceitação, combatendo-a sobretudo o geógrafo Nordenskiold, alegando: a) ser inverosímil a facilidade com que a viagem fora feita; b) não atingir a latitude de 84 graus boreais a costa asiática, que a epístola de La Madelène dizia percorrida até aí.
Sem dificuldade alguma desfez Jaime Batalha Reis - ao divulgar em Portugal, há meio século, os estudos de Buache - os argumentos de Nordenskiold, afirmando: a) que nada se sabe a respeito das facilidades ou dificuldades encontradas durante a viagem, pois quanto a isso é totalmente omissa a breve notícia redigida por La Madelène; b) que nela não se afirma ter sido costeada a Asia até 84º Lat. N., mas sim o navio correra ao norte até 84 graus, tendo primeiro acompanhado a costa.
Recentemente, mostrou-se também pouco inclinado a aceitar como realmente seguido por Melgueiro o dito itinerário um historiador português - o Visconde de Lagoa. Para este autor são suspeitas as condições em que a notícia da viagem de Melgueiro se tornou conhecida: fixada, tardiamente, por «um tal M. La Madelène, oficial de marinha francês em serviço de espionagem diplomática em Portugal, notícia, por seu turno, inspirada na outiva de um marinheiro do Havre que residiu no Porto e foi íntimo confidente de Melgueiro, a cujos derradeiros momentos assistiu», não tendo havido, por parte dos holandeses, qualquer esforço de propaganda dum tal efeito, que os honraria tanto como aos portugueses, mas antes, como até já La Madelène supunha, um deliberado propósito de ocultar o relato coevo, decerto redigido. Quanto à citação do mapa de João Teixeira, feita por Buache, crê o Visconde de Lagoa haver nela um equívoco, devendo tratar-se não dum mapa do dito cartógrafo português, mas sim duma das cartas do atlas anónimo atribuído a Baptista Agnese, de que existe um exemplar na Sociedade de Geografia de Lisboa, e na qual «se vê, de facto, o traçado da viagem em questão».
Observaremos, quanto a esta última afirmação, que no referido mapa atribuído a Baptista Agnese está de facto marcada uma viagem em regiões nórdicas, entre o Extremo-Oriente e um porto setentrional da costa ocidental da Península Ibérica, o qual bem pode ser o Porto. Simplesmente, tal percurso de nenhum modo corresponde à descrição da viagem que se atribui a Melgueiro, realizada pelo norte de Ásia e da Europa, ao passo que aquele liga o Pacífico ao Atlântico pelo norte da América setentrional, parecendo corresponder à discutida viagem de Maldonado (1588), em que se diz ter tomado parte o piloto português João Martins. De resto, o que Buache afirmou não foi que um percurso como o de Melgueiro se encontrava traçado num mapa português de 1649, mas sim que neste se via marcado o estreito existente entre a Ásia e a América do Norte; ora esta modesta afirmação nada tem de extraordinário, pois esse estreito, com a denominação de Aniam, se encontra efectivamente em muitas cartas anteriores à data em que se diz feita a viagem de Melgueiro. E até, quanto a nós, o facto de já se conhecer tal estreito, dá verosimilhança à iniciativa atribuída a Melgueiro, que por ele se meteria à busca duma passagem para a Europa, muito mais curta do que a habitual através do Pacífico, do Índico e do Atlântico.
No entanto, tem de reconhecer-se que não constitui prova documental suficiente para uma afirmação absoluta o documento de La Madelène, publicado por Buache, e que a extrema dificuldade duma extensa viagem pelas águas do Ártico, semeadas de gelos, põe de sobreaviso contra optimismos de aceitação. Contudo, nem esta extrema dificuldade significa impossibilidade — não só porque pode crer-se na eventualidade de terem existido condições meteorológicas excepcionais, como sobretudo porque as águas do Ártico correm para oeste pelo norte da Ásia e da Europa, — nem quanto ao documento invocado e à sua autoria se divisa qual o móbil determinante duma fraude. E assim, sem poder afirmar-se peremptoriamente que o descobrimento da passagem do nordeste foi feito em 1660 pelo capitão português David Melgueiro, nada impede de crer que tão sensacional feito foi efectivamente realizado.

Este pormenor das correntes do Árctico é hoje confirmada em vários sites. A análise das correntes favorece naturalmente uma Passagem de Nordeste de este para oeste, sobretudo dadas as características dos navios da época.

Igualmente curioso é o facto do mapa de Spitsbergen de Blaeu, de 1662 (imagem retirada daqui e visível abaixo), ser o primeiro que mapeia a costa norte de Spitsbergen. Note-se que as referências à viagem de Melgueiro referem que ele terá passado entre Spitsbergen e a Gronelândia, pelo que teria tido que fazer a viagem pela costa norte de Spitsbergen. Ainda assim, mesmo que não tenha qualquer relação com Melgueiro, evidencia como era conhecido que aquelas águas ficavam livres do gelo polar durante o Verão.



Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro: ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html