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quinta-feira, 22 de março de 2012

Climigra

O Instituto de Meteorologia divulgou ontem que vai coordenar o projecto Climigra, que visa estudar o impacto das variações climáticas nos movimentos migratórios em Portugal continental e Regiões Autónomas. Pretende dar uma visão histórica das variações climáticas, utilizando-se "o legado histórico da informação climática em Portugal existente no IM, enquanto única informação climática validada para o território nacional". Para além do IM, participam "algumas Universidades, Centros de Investigação e Institutos Públicos nacionais, no continente e Região Autónoma dos Açores".

Mas, o que eles querem sei eu! O que eles querem é martelar os dados, para que seja reconhecido que as Alterações Climáticas, ou o Aquecimento Global, são piores do que se imaginava! Se eles estivessem verdadeiramente interessados na temática, libertavam esse legado histórico para o público, e comunidade científica, e garanto-vos que também eu participava! Assim, a minha primeira participação neste domínio, vai ser a de desmontar os interesses instalados neste projecto.

Pouca mais informação existe na Internet. O Governo Regional dos Açores antecipou-se uma semana na divulgação deste projecto fraudulento. Ao invés do IM, diz lá que muitos mais coordenam! E diz lá também que a História Climática vai começar, neste País com muitos séculos de existência, apenas em meados do século XIX!

Por isso, vou começar o projecto Climentiras. Ele visa conhecer as verdadeiras alterações climáticas, ao longo de toda a História de Portugal, mesmo anterior à nossa Independência em 1143. Para expor as mentiras que se propagam por aí, e que se vão intensificar com este projecto. Alguns dos posts anteriores podem ser aproveitados, como a investigação sobre David Melgueiro, a referência à Real Fábrica do Gelo, e muitas outras que estão agrupadas na etiqueta História. Conto também para isso com o contributo dos leitores, que possam sugerir pistas, ou mesmo escrever parte desta nossa História desconhecida, e esquecida...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Melgueiro e as condições meteorológicas excepcionais

Nos quatro posts passados sobre David Melgueiro, abordamos primeiro o relato da suposta viagem, depois as tentativas anteriores, bem como a cartografia da época. Finalmente, neste post abordamos outros factores que podem indiciar que a Passagem era susceptível de ser concluída com êxito. A sequência completa desta investigação de David Melgueiro está disponível aqui, estando a versão em inglês disponível aqui, tendo sido igualmente publicada no Watts Up With That.

Do último post destacamos novamente Damião Peres, que referiu na sua "História dos descobrimentos portugueses" de 1959, a "eventualidade de terem existido condições meteorológicas excepcionais". Foi esta frase que me lançou nesta cruzada!

Sabia bem que não havia registos de temperaturas fiáveis à época. Mas sabia que haviam sido calculadas temperaturas para esse século pela dendrocronologia. De todos os trabalhos até hoje, há um que é dos mais referenciados na comunidade científica: "Annual climate variability in the Holocene" de Keith R Briffa, publicado em 2000 na Quaternary Science Reviews, e disponível aqui em PDF. Da análise visual que se pode fazer das médias de temperaturas que Briffa publicou na Figura 1 do seu paper, visível no gráfico abaixo, podemos ver que há efectivamente por volta de 1660 uma subida de temperaturas:


Sabia que Steve McIntyre já havia analisado estes estudos, e neste artigo encontrei informação importante para contextualizar o estudo de Briffa, bem como os dados originais deste. A importância deste trabalho é que a média de Briffa é chamada de "Northern Chronology Average", porque é obtida a partir de séries a latitudes elevadas. Tais temperaturas representam pois uma boa estimativa das temperaturas experimentadas ao longo da História, na zona por onde se faz a passagem do Nordeste. Daqui facilmente cheguei ao gráfico seguinte, utilizando os dados médios compilados por Briffa:


Aí se verifica que o ano do início da viagem de David Melgueiro, mas sobretudo os anos imediatamente anteriores, foram anos com temperaturas, no norte do hemisfério norte, claramente superiores à média. Aliás, foram as temperaturas mais elevadas em cerca de dois séculos! Tais temperaturas poderão ser uma prova de que terão existido as "condições meteorológicas excepcionais" de que Damião Peres falava.

Para uma melhor contextualização dos registos da Passagem do Nordeste, na imagem anterior anotei as datas mais relevantes da Passagem do Nordeste. Particularmente relevante são os anos frios experimentados por Barentsz, mas que mesmo assim ainda conseguiu contornar a parte norte da ilha de Novaya Zemlya, não muito longe do Cabo Chelyuskin, a parte mais a norte da Ásia. Note-se que as temperaturas experimentadas por Melgueiro terão sido melhores que as do próprio Nordenskiöld, que também teve a seu favor, nos seus dois anos de viagem, temperaturas acima da média...

Esta evidência não prova todavia que a viagem de David Melgueiro se tenha realizado. Apenas a torna mais provável, segundo as próprias palavras de Damião Peres. Os dados concretos praticamente não existem, e um manto de secretismo parece ter envolto esta história. Buache queixava-se mesmo que registos holandeses da suposta viagem não estavam disponíveis. Quem sabe, as provas definitivas estão aí algures...

Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro: ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html

Dados que indiciam possibilidade de viagem de Melgueiro

Este é o quarto episódio na saga da análise da possibilidade da Passagem do Nordeste ter sido efectivamente realizada por David Melgueiro. Depois de termos introduzido a viagem, verificado os antecedentes, e a cartografia disponível, e antes de passarmos ao post final, analisaremos neste outras evidências que permitem equacionar a possibilidade da realização da viagem.

Edmund Burke, um autor irlandês, no seu Annual Register de 1760, descreve outros pormenores que evidenciam como uma passagem do Nordeste, e a viagem de Melgueiro, era possível:

This testimony is confirmed by several collateral proofs of a north passage to India; the captain aud crew of a vessel called the Epervier, who having suffered shipwreck in 1653, near the islands of Japan, were thirteen years prisoners at Corea, affirm that many of the whales, which they saw in the sea between Corea and Japan, had hooks and harpoons in them belonging to the French and Dutch, who generally fish for these animals at Spitzbergen, the northern extremity of Europe.

Burke vai mesmo mais longe, avançando com relatos da época:

Capt. Wood also reports, in 3 paper published before he performed his voyage, that two Dutch vessels had proceeded as high as lat. 89, which is within one degree of the pole, and there found the sea free and open, though of an unfathomable depth, as appears by four of their journals, which, though separately kept, concurred in this fact, Wood adds, that a Dutchman of great veracity had assured him, that he had even passed under the pole, and found the weather as warm as at Amsterdam. Nor will this appear strange, when it is considered that there being no ice in this part, for the reasons already assigned, the Sun must necessarily give a considerable warmth to the air, by remaining so long above the horizon: so that, upon the whole, the reality of a passage through the North Sea to India seems to be a fact supported by every kind of proof that the subject will admit, except the living testimony of mariners who have made the voyage.

Este último texto é igualmente relatado por Johann Reinhold Forster, no seu livro History of the voyages and discoveries made in the North, nas páginas 426-427.

Sobre o Inverno de 1660-1661, há ainda um relato muito interessante do diário de Samuel Pepys, onde ele relata um Inverno particularmente quente, embora relativo ao Reino Unido, e que poderá ter contribuído para reunir as condições para a viagem de Melgueiro:

It is strange what weather we have had all this winter; no cold at all; but the ways are dusty, and the flies fly up and down, and the rose-bushes are full of leaves, such a time of the year as was never known in this world before here.

Todo este enquadramento permitiu a alguns historiadores equacionar a possibilidade de que esta viagem de David Melgueiro tenha sido efectivamente possível. Talvez a mais reconhecida dessas opiniões seja a de Damião Peres, que na sua "História dos descobrimentos portugueses" de 1943, nos descreve (com realces da minha responsabilidade):

Viagem de David Melgueiro sob bandeira holandesa
Em 1701, o oficial da marinha francesa La Madelène, que se achava em Portugal ao serviço da diplomacia do seu país, como agente secreto, comunicou ao Conde de Pontchatrain sensacionais notícias relativas a uma viagem do Japão para Portugal, realizada, através do Oceano Ártico cerca de quarenta anos antes, por um navio holandês cujo comando era exercido pelo capitão português David Melgueiro. A dita embarcação, que se chamava O Pai Eterno, saíra do Japão em 14 de Março de 1660, correra a costa da Ásia para o norte, atingira cerca de 84° de latitude setentrional, e daí fora até às vizinhanças da Spitzberg, donde, passando entre esta ilha e a Gronelândia e por oeste da Escócia e da Irlanda, viera demandar a foz do rio Douro. No Porto veio a morrer, por 1673, o dito capitão português, como testemunhava um marinheiro do Havre, que aí então ainda o vira.
A carta de La Madelène onde tais informações se encontravam, datada de 14 de Janeiro de 1701, foi publicada em 1853 pelo geógrafo Filipe Bouache numa memória intitulada Considérations geographiques et physiques sur les nouvelles découvertes au Nord de la grande mer appellée vulgairement la Mer du Sud avec des cartes qui y sont relatives, cuja substância se repetiu no ano seguinte num artigo das Memoires de Mathematique et de Physique tirées des registres de l'Académie Royale des Sciences.
Publicando a referida epístola, Buache mostrou-se convicto de que Melgueiro descobrira de facto uma nova via de comunicação entre os oceanos Pacífico e Atlântico - a chamada passagem de nordeste - percorrendo o Ártico de leste a oeste, após ter ali penetrado pelo estreito que separa a Ásia da América, estreito que ele, Buache, vira representado num mapa português, existente em Paris, desenhado em 1649 pelo cartógrafo Teixeira.
A opinião de Buache não logrou geral aceitação, combatendo-a sobretudo o geógrafo Nordenskiold, alegando: a) ser inverosímil a facilidade com que a viagem fora feita; b) não atingir a latitude de 84 graus boreais a costa asiática, que a epístola de La Madelène dizia percorrida até aí.
Sem dificuldade alguma desfez Jaime Batalha Reis - ao divulgar em Portugal, há meio século, os estudos de Buache - os argumentos de Nordenskiold, afirmando: a) que nada se sabe a respeito das facilidades ou dificuldades encontradas durante a viagem, pois quanto a isso é totalmente omissa a breve notícia redigida por La Madelène; b) que nela não se afirma ter sido costeada a Asia até 84º Lat. N., mas sim o navio correra ao norte até 84 graus, tendo primeiro acompanhado a costa.
Recentemente, mostrou-se também pouco inclinado a aceitar como realmente seguido por Melgueiro o dito itinerário um historiador português - o Visconde de Lagoa. Para este autor são suspeitas as condições em que a notícia da viagem de Melgueiro se tornou conhecida: fixada, tardiamente, por «um tal M. La Madelène, oficial de marinha francês em serviço de espionagem diplomática em Portugal, notícia, por seu turno, inspirada na outiva de um marinheiro do Havre que residiu no Porto e foi íntimo confidente de Melgueiro, a cujos derradeiros momentos assistiu», não tendo havido, por parte dos holandeses, qualquer esforço de propaganda dum tal efeito, que os honraria tanto como aos portugueses, mas antes, como até já La Madelène supunha, um deliberado propósito de ocultar o relato coevo, decerto redigido. Quanto à citação do mapa de João Teixeira, feita por Buache, crê o Visconde de Lagoa haver nela um equívoco, devendo tratar-se não dum mapa do dito cartógrafo português, mas sim duma das cartas do atlas anónimo atribuído a Baptista Agnese, de que existe um exemplar na Sociedade de Geografia de Lisboa, e na qual «se vê, de facto, o traçado da viagem em questão».
Observaremos, quanto a esta última afirmação, que no referido mapa atribuído a Baptista Agnese está de facto marcada uma viagem em regiões nórdicas, entre o Extremo-Oriente e um porto setentrional da costa ocidental da Península Ibérica, o qual bem pode ser o Porto. Simplesmente, tal percurso de nenhum modo corresponde à descrição da viagem que se atribui a Melgueiro, realizada pelo norte de Ásia e da Europa, ao passo que aquele liga o Pacífico ao Atlântico pelo norte da América setentrional, parecendo corresponder à discutida viagem de Maldonado (1588), em que se diz ter tomado parte o piloto português João Martins. De resto, o que Buache afirmou não foi que um percurso como o de Melgueiro se encontrava traçado num mapa português de 1649, mas sim que neste se via marcado o estreito existente entre a Ásia e a América do Norte; ora esta modesta afirmação nada tem de extraordinário, pois esse estreito, com a denominação de Aniam, se encontra efectivamente em muitas cartas anteriores à data em que se diz feita a viagem de Melgueiro. E até, quanto a nós, o facto de já se conhecer tal estreito, dá verosimilhança à iniciativa atribuída a Melgueiro, que por ele se meteria à busca duma passagem para a Europa, muito mais curta do que a habitual através do Pacífico, do Índico e do Atlântico.
No entanto, tem de reconhecer-se que não constitui prova documental suficiente para uma afirmação absoluta o documento de La Madelène, publicado por Buache, e que a extrema dificuldade duma extensa viagem pelas águas do Ártico, semeadas de gelos, põe de sobreaviso contra optimismos de aceitação. Contudo, nem esta extrema dificuldade significa impossibilidade — não só porque pode crer-se na eventualidade de terem existido condições meteorológicas excepcionais, como sobretudo porque as águas do Ártico correm para oeste pelo norte da Ásia e da Europa, — nem quanto ao documento invocado e à sua autoria se divisa qual o móbil determinante duma fraude. E assim, sem poder afirmar-se peremptoriamente que o descobrimento da passagem do nordeste foi feito em 1660 pelo capitão português David Melgueiro, nada impede de crer que tão sensacional feito foi efectivamente realizado.

Este pormenor das correntes do Árctico é hoje confirmada em vários sites. A análise das correntes favorece naturalmente uma Passagem de Nordeste de este para oeste, sobretudo dadas as características dos navios da época.

Igualmente curioso é o facto do mapa de Spitsbergen de Blaeu, de 1662 (imagem retirada daqui e visível abaixo), ser o primeiro que mapeia a costa norte de Spitsbergen. Note-se que as referências à viagem de Melgueiro referem que ele terá passado entre Spitsbergen e a Gronelândia, pelo que teria tido que fazer a viagem pela costa norte de Spitsbergen. Ainda assim, mesmo que não tenha qualquer relação com Melgueiro, evidencia como era conhecido que aquelas águas ficavam livres do gelo polar durante o Verão.



Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro: ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html

sábado, 28 de janeiro de 2012

A cartografia antes de Melgueiro

Após um artigo inicial sobre David Melgueiro, e outro sobre as explorações procurando a Passagem do Nordeste antes de 1660, vamos neste abordar a cartografia disponível à época da possível viagem de Melgueiro.

Por volta de 1490, o cartógrafo alemão Henricus Martellus produziu um mapa do Mundo conhecido até então, visível na primeira imagem abaixo, onde é visível uma faixa de água no norte do continente asiático, indiciando assim a possibilidade da existência de uma passagem do Nordeste. Martellus produziu ainda mais mapas, visíveis neste link. No início do século XVI, em 1507, o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller produziu um mapa do Mundo contorverso. Uma análise detalhada da sua obra pode ser consultada aqui. No segundo mapa visível abaixo (retirado daqui), pode ver-se como também é dada a possibilidade de existência da Passagem do Nordeste.



Qualquer um destes mapas, bem como os de Martin Behaim, ao serviço de Portugal na altura, sofrem todavia fortes influência de Ptolemeu, e da sua obra Geographia.

Particularmente relevante neste domínio foram os mapas do cartógrafo Gerardus Mercator. Em 1569 produziu um mapa (imagem abaixo retirada daqui; maior detalhe aqui) com a sua projecção. Embora com notáveis erros em determinados locais do globo, o contorno do norte da Ásia revela-se aproximado com o real, excepto sobretudo na região mais a este da Sibéria. A Passagem do Nordeste é dada como um facto:


Em 1570, Abraham Ortelius, encorajado por Mercator, compilou o primeiro atlas moderno do Mundo, Theatrum Orbis Terrarum. Como se pode observar na imagem seguinte, também aqui toda a costa norte da Ásia é dada como navegável:


Na Biblioteca Nacional da Rússia encontramos mais uns mapas importantes. O primeiro mapa abaixo (imagem retirada daqui), de Abraham Ortelius, é dado como sendo de 1570, mas noutra fonte é dado como sendo de 1584. No mapa é perfeitamente visível o estreito de Anian, e é clara a possibilidade de contornar a Sibéria pelo norte. O segundo mapa, de Jodocus Hondius, de 1600, é baseado no mapa de Mercator de 1569, incorporando a expedição de Barents de 1595-1597. O terceiro mapa, de Hessel Gerritsz, é de 1613, e mapeia a Rússia, e a sua costa norte, incluindo também Novaya Zemlya. Pormenor importante sobre esta sequência é o facto de todos estes mapas serem feitos por Holandeses, ao serviço dos quais Melgueiro se encontrava.



Ainda antes da viagem de Melgueiro, há a destacar o trabalho do cartógrafo Willem Blaeu. Também ele um holandês, foi em 1633 nomeado cartógrafo oficial da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Em 1635 produziu o Nova totius terrarum orbis geographica ac hydrographica tabula, visível abaixo:


Note-se como este mapa é muito mais real que o de Mercator e Ortelius. Blaeu produziu posteriormente mapas mais detalhados, também fruto do seu trabalho na Companhia. Na primeira das imagens abaixo (duas primeiras imagens retiradas daqui), de 1638, vemos em grande detalhe a costa norte da Rússia. Na segunda imagem, num mapa de 1640, podemos observar toda a extensão do mar Árctico. No terceiro mapa (imagem retirada daqui), também de 1638, podemos observar o extremo este do continente asiático, com mais alguns detalhes que os mapas anteriores.


O mistério envolvendo estes mapas, bem como outros, é abordada de forma interessante neste artigo. Em qualquer caso, é seguro dizer-se que David Melgueiro teria acesso a esta informação quando terá eventualmente efectuado a Passagem do Nordeste, em 1660.

Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro: ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Passagem do Nordeste antes de David Melgueiro

Depois do artigo inicial sobre David Melgueiro, iremos neste reflectir sobre o conhecimento disponível à época. Foram várias as expedições procurando a Passagem do Nordeste, e sobre muitas delas pouco reza a História. Para enquadrar a possibilidade da verdadeira realização da viagem de Melgueiro, é preciso perceber o que o precedeu.

Começaremos pelo norte da Rússia, onde os Pomors chegaram aos mares do Norte durante o século doze, através dos estuários de Dvina/Norte e Onega. Da sua base de Kola, exploraram todo o mar de Barents, incluindo Spitsbergen e Novaya Zemlya. Mais tarde, os Pomors descobriram e mantiveram a Passagem do Nordeste entre Arkhangelsk e a Siberia. Com os seus navios, designados koch, especializados para a navegação nas díficeis condições do Árctico, os Pomors atingiram locais longínquos da Sibéria, como Mangazeya, a este da penínusula de Yamal. Neste excelente documento de Nataly Marchenko, encontramos uma mapa alusivo às navegações dos Pomor:


No início do século XVII, nos três meses de Verão, o transporte de mercadorias através de barco era frenética. O desaparecimento de Mangazeya ficou sobretudo a dever-se a razões políticas, pois em 1619 foi punida com a pena de morte quem negociasse na região, depois de em anos anteriores o volume de trocas comerciais aí ter superado o de toda a Rússia, sem que esta conseguisse aí cobrar impostos... Curiosamente, Mangazeya foi devastada por um fogo em 1662, que levou à sua evacuação, tendo sido redescoberta em 1967. Mais informação sobre Mangazeya pode ser vista neste documento, em russo.

Entretanto, em Roma, o diplomata Dmitry Gerasimov, em 1525, avançara com uma possível ligação entre o Atlântico e o Pacífico. Em 1553, Hugh Willoughby, comandou três navios, com o piloto Richard Chancellor, em busca da passagem do Nordeste. Os navios foram separados por ventos fortes, e enquanto Willoughby aportou a uma baía próxima da actual fronteira entre a Finlândia e a Rússia, tendo morrido durante o Inverno, Chancellor conseguiu atingir o Mar Branco, e daí regressar a Moscovo por terra. Mais tarde, Chancellor conseguirá descobrir o que aconteceu a Willoughby, recuperar alguma da sua documentação, e nela encontrar referências a Novaya Zemlya. Entretanto, Steven Borough, que também participara na expedição de Willoughby, numa segunda expedição em 1556, descobriu o estreito de Kara, mas teve que voltar para trás, em função do gelo. Um século antes de Melgueiro, Borough passou o Inverno em Kholmogory, no Mar Branco.

Willem Barentsz, navegador holandês, foi o explorador que mais activamente procurou a Passagem do Nordeste, no final do século XVI. Na sua primeira viagem, em 1594, conseguiu atingir a costa oeste de Novaya Zemlya, mas teve que voltar para trás por causa do gelo. No ano seguinte, Barentsz fez a sua segunda tentativa, mas perante um mar de Kara gelado, foi obrigado a voltar atrás, tendo a expedição sido considerada um fracasso.

Na terceira e última viagem, na qual viria a morrer, Barentsz começou por descobrir Spitsbergen, donde prosseguiu para Novaya Zemlya. Quase na ponta norte da ilha tiveram que passar o Inverno seguinte, tendo sido construída uma cabana. No Verão seguinte regressaram para Sul, mas entretanto Barentsz morreu no regresso. Uma boa descrição desta viagem está disponível no livro The North-west and North-east passages 1576-1611, de Philip Alexander.

Os holandeses foram dos mais activos na procura da Passagem do Nordeste. Note-se que este é um factor que importa na equação da viagem de Melgueiro, uma vez que o Pai Eterno, no qual terá efectuado a Passagem do Nordeste, era um navio holandês. Ainda antes de Barentsz, Olivier Brunel tentou em 1584 encontrar a rota para leste pelo norte. No início do século XVII, vários navegadores ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais procuraram activamente a passagem, nomeadamente Henry Hudson.

Segundo Leonid Sverdlov, Membro da Sociedade Geográfica Russa, existirá evidência de que um empreendimento comercial terá partido de Ob ou Yenisey, e contornado o Cabo de Chelyuskin, a ponta mais a norte da Ásia, tão cedo quanto 1617-1620. Achados arqueológicos de 1940-1945 no golfo de Sim e na ilha de Faddeyevsky parecem servir de evidência para tal empreendimento. Aliás, à ilha de Faddeyevsky está associada "Kettle Island", oficialmente descoberta em 1773 pelos russos Ivan Lyakhov e Protod’yakonov, e que deram o nome à ilha por nela terem encontrado uma chaleira de cobre. Quem aí a deixou continua hoje a ser um mistério...

Em 1648 Semyon Dezhnyov tornou-se o primeiro europeu a passar o estreito de Bering, ou de Anian, como era conhecido anteriormente. Na companhia de Fedot Alekseyev, Andreev e Afstaf’iev, navegaram pelo rio Kolyma até ao Oceano Árctico, contornaram a península de Chukchi, até ao rio Anadyr, já no Pacífico. A descoberta não teve grande divulgação, tendo mesmo sido alvo de desacreditação. Ainda segundo a lenda, alguns dos barcos da expedição terão sido desviados para o Alaska, mas nenhuma evidência existe, para além do desaparecimento de grande parte da expedição, dado que apenas o barco de Dezhnyov, um de sete, chegou ao Anadyr.

Ainda na primeira metade do século XVII destacaram-se os exploradores russos Mikhail Stadukhin, Ilya Perfilyev, Ivan Rebrov, Elisei Buza, Poznik Ivanov e Dimitry Zyryan, que exploraram as zonas dos rios Yana, Indigirka e Kolyma. Destaque também para Kurbat Ivanov, que em 1660 (mesmo ano da partida de Melgueiro) partiu da baía de Anadyr para o Cabo Dezhnyov. Na sequência desta viagem Ivanov criou um mapa de Chukotka e do estreito de Bering.

Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro: ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Cheias de Novembro de 1967

Sempre que se fala em cheias, nos anos mais recentes, a culpa é do Aquecimento Global, Alterações Climáticas, ou da mais recente teoria dos fenómenos extremos... O problema dos abutres climáticos é que, ou são novos demais, ou já não se lembram dos eventos de antigamente...

É por isso que é cada vez mais importante reportar os fenómenos extremos do passado. Como o foram as cheias de Novembro de 1967. Como o recorda J. Alveirinho Dias, da Universidade do Algarve, nesta página:

Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 registou-se, na região de Lisboa, precipitação intensa e concentrada, tendo atingido, na estação de São Julião do Tojal, no concelho de Loures, 111mm em apenas 5 horas (entre as 19h e as 24 h do dia 25). As estações da região de Lisboa registaram, nesta data, cerca de um quinto do total da precipitação anual.

Tal precipitação excepcional, cujo período de retorno está estimado em de 500 anos, provocaram a ocorrência de uma cheia repentina com duração inferior a 12 horas.

As consequências foram dramáticas, como se pode aferir pela imagem acima, mas sobretudo por esta descrição:

A situação na região de Lisboa tornou-se completamente caótica. As cheias destrutivas causaram a morte de 462 pessoas e desalojaram ou afectaram cerca de 1100, submergindo centenas de casas e infra-estruturas num rio de lamas e pedras. Todavia, permanecem muitas dúvidas sobre a dimensão deste evento, designadamente no que se refere ao número de vítimas mortais, pois que o regime político da altura nunca permitiu apurar as verdadeiras consequências desta catástrofe. Algumas estimativas apontam para prejuízos da ordem dos 3 milhões de dólares a preços da época.

Outra boa fonte de informação está no meteopt.com. Impressionante mesmo é o relato do Comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de Odivelas, Fernando de Oliveira Aleixo, que refere alguns esforços heróicos dos bombeiros e que contribuíram para salvar muitas pessoas.

Da próxima vez que ouvirem falar de uma cheia fenomenal em Portugal, comparem-na com esta.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

David Melgueiro

Também eu desconhecia a existência de David Melgueiro. O seu nome foi-me passado pelo leitor habitual, Jorge Oliveira, há mais de um ano atrás. Para quem gosta tanto de História como o Ecotretas, o desenterrar da história deste navegador português do século XVII tem sido um desafio muito interessante. Lancei o repto a algumas pessoas importantes da História em Portugal, mas preferiram ignorar-me. Por isso, percorri este caminho sozinho. Este é apenas o primeiro de vários posts sobre Melgueiro; no post final colocarei informação que permitirá possivelmente equacionar uma maior probabilidade da sua viagem!

David Melgueiro terá sido o primeiro a navegar a passagem do nordeste, entre 1660 e 1662, mais de 200 anos antes de Adolf Erik Nordenskjöld, quem comprovadamente a efectuou em 1878. Um dos relatos mais detalhados desta viagem é dado por Eduardo Brazão, em Os Corte Reais e o Novo Mundo, de 1965, em que descreve nas páginas 68 e 69:

(...)(*) No entanto é interessante aqui apontar a imaginária, como supomos, viagem do nosso Melgueiro, em que se acreditou durante bastante tempo. Oiçamos, sobre o assunto, DUARTE LEITE (ob. cit., vol. II, pág 261 e seg.):

«Nos fins do século XVIII achava-se em Portugal o tenente da marinha francesa La Madeleine, encarregado pelo seu ministro, conde Luis de Pontchartrain, de se informar das navegações e comércio dos portugueses no Oriente. No decurso da sua missão soube, por um marinheiro do Havre residente no Porto, duma extraordinária navegação do Japão a Portugal, feita por um português pessoalmente conhecido do marinheiro francês. Em Janeiro de 1700 comunicou as informações dele obtidas ao seu ministro, que as mandou arquivar: elas foram reproduzidas numa memória de 1754 pelo francês Filipe Buache, distinto geógrafo régio de Luis XV.

Contou o marinheiro francês que a 14 de Março de 1660 estava prestes a partir do porto japonês de Cangoxima o veleiro holandês Padre Eterno, ao comando do português David Melgueiro, carregado de ricas mercadorias orientais e de passageiros holandeses e espanhóis, talvez mesmo de portugueses, visto como já no século passado tinham entrado no império nipónico. Ao tempo a Europa deflagrava em guerras, da Holanda com a França, a Espanha e Portugal, da Espanha com a Inglaterra, aliada de Portugal, que lutava pela sua independência: o Atlântico e os mares orientais estavam infestados de navios armados em guerra, aos quais se juntavam os empenhados no corso. Era quase certa a captura do Padre Eterno, se tentasse regressar à Europa pela única via até então utilizada do cabo da Boa Esperança, de sorte que Melgueiro resolveu arriscar-se à que lhe restava, pelos mares glaciais que circundam o velho continente. Tomou pois pela corrente que banha as costas orientais do Japão e segue até o estreito de Anian-Bering, contornou o extremo da Sibéria ao longo de cujo litoral velejou, presumivelmente muito pelo largo, pois não o conhecia: atingia a elevada latitude de 84º N. passou entre a Gronelândia e o arquipélago de Spitzberg, e singrou ao lado da Noruega, donde deu a volta a barlavento da Irlanda e foi ter a um porto da Holanda, onde depôs os passageiros e as respectivas mercadorias. Cumprida, felizmente, a sua missão, partiu no Padre Eterno para o Porto, com açúcar e vinho recebido em escalas, terminando a sua longa e aventurosa viagem em data desconhecida; e nessa cidade morreu, pouco depois de 1673, tendo o marinheiro de Havre assistido ao seu enterro.

À sua memória de 1754, juntou Buache a cópia dum mapa português datado de 1649, dum tal Teixeira, que examinou no arquivo da marinha francesa, no qual traçou o itinerário que julgou ter sido o de Melgueiro: ele segue do Japão pelo estreito de Anian-Bering até o extremo da Sibéria, depois tanto pelo largo que ultrapassa o pólo e vem passar entre as ilhas da Gronelândia e de Spitzberg, e ladeando a Irlanda corre para as costas europeias».

Ora este projecto é hoje considerado impossível, mas o erudito e diplomata Jaime Batalha Reis, em 1897, dava-lhe nova nova forma (O Comércio do Porto, de 3 de Fev. desse ano, estudo reeditado na colectânea póstuma do escritor, Lisboa 1941).

No entanto, recentemente, Teixeira da Mota conseguiu identificar o cartógrafo mencionado (Portugaliae Monumento Cartographiea, vol. IV), havendo a possibilidade, até aqui improvável, de, realmente, La Madeleine ter visto em França um mapa português de 1649 dum cartógrafo de nome Teixeira. Mas falta averiguar se realmente, na data que se apontou, saiu de Cangoxima um veleiro holandês de nome Padre Eterno; e ainda, acima de tudo, se houve algum português com o nome, que não parece nosso, de David Melgueiro ou talvez melhor Melguer.

O problema fica ainda arquivado na estante vasta das fantasias históricas.

Este livro tem uma versão inglesa, sendo que há também a versão francesa do livro, que está disponível online aqui.

A leitura do texto de Brazão, remete indirectamente para o texto de Philippe Buache, um geógrafo francês. Os escritos originais de Philippe Buache, em "Considérations géographiques et physiques sur les nouvelles découvertes au Nord de la grande mer", de 1753, estão disponíveis aqui. A parte interessante relativa a Melgueiro está entre as páginas 137 e 139...

Nota: Este post foi integrado numa página onde se relata toda a investigação efectuada sobre David Melgueiro: ecotretas.blogspot.com/p/david-melgueiro.html

domingo, 8 de janeiro de 2012

Warme Winter

O leitor Horst Stricker enviou-nos um excerto muito interessante do livro Kalendergeschichten ("Histórias de Almanaque"), de Johann Peter Hebel. O texto original pode ser visto neste exemplar do Google Books, nas páginas 90 e 91. Horst Stricker teve ainda a amabilidade de nos traduzir o texto, que revela que também no passado existiram alterações climáticas, Aquecimento Global, e coisas que tal. Continuo aqui no Ecotretas a referenciar estas importantes notas históricas, pois os actuais alarmistas bem gostariam que elas desaparecessem. E a sonhar com um Inverno bem quentinho, coisa que nem os nossos amigos brasileiros parecem ter...

Invernos Quentes (1808)
de Johann Peter Hebel(1760-1826)

O inverno quente do ano 1806-1807 causou muita surpresa e fez bem aos pobres; e aquele e o outro, que agora saltam nos seus sapatos de criança, passado sessenta anos e agora como homem velho, sentado no banco da lareira e contando aos seus netos,que ele também uma vez era criança como eles, que no Anno 6 quando os Franceses estavam na Polónia, entre o Natal e o Ano Novo comeu morangos a apanhou violas. Tempos assim são raros, mas não fora de vulgar, assim se conta nas crónicas antigas há 700 anos, 28 anos semelhantes.

No ano 1289, em que ainda ninguém sabia de nós, era tão quente que as donzelas na altura de Natal e o Dia de Reis, enfeitaram-se com coroas feitas de violas, escovinhas e outras flores.

No ano 1420 o inverno e a primavera eram tão amenos que em Março, as árvores já tinham passado de flor. Em Abril já haviam cerejas e as videiras estavam em flor. Em Maio já haviam uvas a amadurecerem. a primavera 1807 não conseguimos elogiar coisas assim.

No inverno 1538, as meninas e os rapazes conseguiram beijarem-se no espaço verde, se não só em castidade, o calor era de tal maneira que no Natal encontrou-se tudo em flor.

No primeiro mês do ano 1572 rebentaram as árvores e em Fevereiro os pássaros estavam a chocar.

No ano 1585, na Páscoa amadureceu o centeio.

No ano 1617 e 1659 no mês de Janeiro cantaram as cotovias e os tordos.

No ano 1722 a partir de Janeiro deixou-se de aquecer as casas.

No ano 1748 foi o último e invulgar inverno quente.

Em resumo: é melhor rebentarem as árvores no dia de São Estevão (26.12.), do que ter sincelos no dia de São João.

sábado, 26 de novembro de 2011

A antiga barragem do Lindoso

Uma das coisas que me faz confusão hoje em dia, é a rapidez com que a História é apagada. Como os leitores sabem, sou um grande adepto de tudo o que a História passada nos tem para contar, e é por isso que, por exemplo, a variabilidade climática actual não é, para mim, nada de especial, quando comparada com eventos climáticos dos últimos séculos/milénios.

No início deste mês, tropecei neste documento da REN, e observei alguma da História das primeiras barragens portuguesas. De todas elas, a que mais me marcou foi a da Barragem do Lindoso, entretanto substituída pela barragem do Alto Lindoso, uma das barragens de referência em Portugal. Fiz umas pequenas pesquisas na Internet, e o melhor que consegui foi obter alguma informação sobre a central hidroeléctrica, vários quilómetros a jusante. Procurei mais, e nada???

Decidido a encontrar algo que desapareceu há pouco mais de 20 anos, encontrei finalmente esta referência, Lima Internacional: Paisagens e Espaços de Fronteira, tese de Doutoramento de Elza Carvalho, na Universidade do Minho. Deste documento retirei a imagem que coloquei no post anterior, e que abaixo está enquadrada com uma imagem da actual barragem. As duas foram calibradas pelo topo dos montes distantes, sendo ligeiramente distintas na parte frontal, pelo facto das fotografias não terem sido tiradas exactamente do mesmo local:


Três leitores foram capazes de a identificar. O primeiro preferiu ficar anónimo, tendo sido ainda identificadas por Pedro Pais e Jorge Pacheco de Oliveira. Em comum, nenhum dos três a afirmou ter conhecido, sendo que um dos três leitores referiu tê-la identificado pelo estilo de terreno.

A história do encouramento do Lindoso remonta ainda aos tempos da Monarquia, quando Justino Antunes Guimarães e Jesús Palacios Ramilo, apresentaram em 11 de Maio de 1905 o anteprojecto para a exploração hidráulica do salto de Lindoso. Em 1907, D. Carlos I autorgou a concessão do aproveitamento hidroeléctrico, através do alvará de concessão do Aproveitamento hidroeléctrico no rio Lima, de 14-2-1907, publicado no Diário do Governo nº 40 de 20-2-1907. O alvará autorizava a derivação de um caudal de 7000 litros/segundo, por um período de 99 anos, com uma exigência de que as obras começassem num período de um ano, e que fosse terminada em quatro anos. A concessão foi transmitida à Sociedade Anónima Electro del Lima no ano seguinte, constituída em Madrid a 19 de Maio de 1908.

O projecto inicial previa a instalação de 14000 cavalos em 7 grupos, cuja potência alcançaria os 12000 cavalos durante 10 meses, e somente 4510 cavalos no Verão. A represa teria uma altura de apenas 5.8 metros, e o canal de derivação prolongar-se-ía por 420 metros. As obras começaram a 16 de Setembro de 1908, mas dificuldades várias, incluindo a morte de um dos accionistas iniciais, retardaram a construção. A construção do canal de derivação (início visível do lado esquerdo do rio, nesta e noutra foto), entretanto prolongado, resultou em diversos problemas com a população, sobretudo devido a questões de nascentes de água, um tema "quente" na altura. A Primeira Guerra Mundial trouxe dificuldades óbvias, embora trabalhassem na altura entre 500 e 1000 trabalhadores nas obras. Em 2 de Abril de 1921 deram-se por concluídas as obras, com a instalação dos geradores Escher Wyss da General Electric, com uma potência de 8750 kVA, na central hidroeléctrica, cuja imagem é visível abaixo, retirada daqui. Em 10 de Abril de 1922 a energia chega finalmente à central do Freixo, no Porto.


Entre 1923 e 1924 a barragem foi sobrelevada, da altura de 5 metros para uma altura de 22.5 metros. Tal permitiu a constituição de uma albufeira de 750 000 m3, 0.2% do volume máximo da actual barragem do Alto Lindoso. O progressivo aumento do consumo da electricidade obrigou a aumentos sucessivos do canal, das linhas, e da própria central hidroeléctrica e da câmara de carga (visível abaixo, foto retirada daqui), contribuindo para um significativo desenvolvimento local, na localidade de Paradamonte, que distinguia a aldeia de todas as outras em redor. Tais ampliações terminaram em 1951, quando foi montado o último grupo gerador, de 40 000 kVA, que permitiu alcançar uma potência de 92 500 kVA. Algumas imagens dos geradores antigos estão disponíveis aqui, sendo ainda este percurso de geocaching uma referência interessante.


No final da década de 1980 iniciou-se a construção da barragem do Alto Lindoso, que obrigou à destruição da antiga barragem. Algumas imagens dessa ocasião estão disponíveis nos seguintes links: [1] [2] [3]. Na imagem seguinte podemos vê-la ainda, já com as obras necessárias à construção da barragem do Alto Lindoso.


Esta página manter-se-á aberta a edição, por forma a documentar outra informação que entretanto venha a recolher. Se o leitor tiver acesso a mais informação, faça o favor de a enviar. Em particular, uma imagem próxima da barragem seria muito interessante. Mais formidável seria uma imagem da barragem numa situação de cheia, mas creio que isso já é pedir de mais! Ainda assim, o objectivo é tentar manter viva uma recordação histórica que se perdeu há pouco mais de 20 anos...

sábado, 19 de novembro de 2011

História do Clima da Terra

Antón Uriarte é um geógrafo espanhol, que tenho referenciado no Ecotretas, e cujo blog CO2 está incluído na lista de blogs de cépticos internacionais. Antón editou uma compilação online da História do Clima da Terra, e que é de leitura obrigatória para todos aqueles que desejam saber como foram as Alterações Climáticas do passado. Mesmo sendo em Espanhol, a sua leitura é muito fácil.

Abaixo se reproduzem a lista de capítulos do livro, para referência rápida dos leitores. Adicionalmente, abaixo encaixo um vídeo onde ele explica diversas questões associadas ao CO2.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Hidroelectricidade em Portugal

De vez em quando tropeço em documentos que são verdadeiramente interessantes. Este chama-se Hidroelectricidade em Portugal e foi publicado pela REN em 2002. O documento tem algumas pérolas, nomeadamente a vertente histórica, incluindo a fase inicial da produção de hidroelectricidade em Portugal, e que o documento encaixa entre o final do século XIX e 1930. O documento tem algumas imagens de centros produtores que hoje já não existem, ou que estão escondidos por esse Portugal fora, quase autênticos monumentos históricos. A da imagem não está incluída, ficando aqui o desafio ao leitor para a tentar identificar (clique para ver melhor)! A quem a identificar será dada uma menção honrosa, por parte do Ecotretas, num post subsequente.

O documento revela ainda aspectos como o da importância do aproveitamento do sistema do Douro, ou como fazer a expansão da componente hidroeléctrica do sistema electroprodutor a longo prazo. Um documento de consulta importante, especialmente num momento em que muita gente fala do assunto, mas não entende, ou não quer entender, a sua importância.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Patetice histórica

Da próxima vez que ouvirem falar que a Ciência está definida nestas questões das Alterações Climáticas, que os cientistas são todos à prova de bala, blábláblá, pensem nesta posta. Via Watts Up With That, recebemos hoje um dos argumentos mais patéticos de que há memória na investigação científica e histórica.

Richard Nevle, um geoquímico da Universidade de Stanford, avançou com a hipótese estúpida de que Cristóvão Colombo, e outros exploradores que se lhe seguiram (presume-se que os Portugueses também foram culpados) desencadearam uma cadeia de eventos, que levaram ao arrefecimento da Europa durante séculos!

Para ele, a conquista das Américas e o dizimar da sua população pelos Espanhóis (parece que os Portugueses afinal já não são culpados...), deixou muita terra por trabalhar, o que permitiu o crescimento das florestas, limpando o CO2 da atmosfera, diminuindo o efeito de estufa e arrefecendo o clima. O estúpido do Nevle adianta que tudo se deveu ao regresso das árvores numa área equivalente pelo menos à da California!

Para mostrar a estupidez deste investigador, mesmo Michael Mann, que sabemos pelo Climategate ser já um dos piores alarmistas, não alinha por este disparate! Ele explica o que todos sabemos da História, relativo à Pequena Idade do Gelo, e que essencialmente resultou do Mínimo de Maunder.

Enfim, é isto a suposta Ciência, que nos enfiam pela goela abaixo? E estes cientistas ainda recebem dinheiros para produzirem esta porcaria? Tem uma agenda escondida, que é uma solução alternativa para o actual problema do Aquecimento Global? E que reforça a teoria da conspiração, de que a solução é matar uns quantos milhares de milhões de seres humanos, para o Aquecimento Global deixar de existir? Pensem nisto! A sério...

Actualização: Acabei de dar os meus parabéns ao Richard pessoalmente! Que continue por muitos e bons anos a escrever estes disparates, para que o pessoal acorde ainda mais depressa!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Nível do mar desde a Idade Média

Como os leitores habituais bem sabem, sou um grande adepto da História. Nest post referencio um artigo de Helena Maria Granja, intitulado Reconstituição Paleoambiental da Zona Costeira, a Norte da Laguna de Aveiro, desde a Idade Média até à Actualidade. Como o título sugere, são referenciados aspectos importantes da costa da zona norte de Portugal, incluindo os avanços e recuos da costa, ao longo dos últimos séculos. Escrito há pouco menos de 10 anos, o artigo ainda não enferma da pseudo-ciência do Aquecimento Global. Leiam para perceber como há indícios de que o nível do mar estava mais elevado há umas centenas de anos:

Na costa portuguesa, a partir do século XI as salinas proliferam, atingindo o auge no século XII (Almeida, 1979), o que corresponde ao período anterior ao do suposto agravamento das condições climatéricas (a seguir a 1300 dá-se um arrefecimento abrupto, ao qual corresponde um período de fome na Europa; os séculos XIV-XV terão sido de muita humidade, com propagação de inúmeras doenças, Lamb, 1995). De facto, sobre os depósitos lagunares anteriormente referidos, sobrepõem-se outros que indicam a existência de ambientes de praia, o que implicaria uma pequena subida do nível do mar. As salinas de xisto, da zona entre os rios Neiva e Cávado, assentam num leito de areia grossa à mistura com seixos miúdos (S. Bartolomeu-Belinho), estando cobertas por uma duna de razoáveis proporções (Almeida, 1979). A base destas salinas (Foz do Neiva, Belinho e S. Bartolomeu do Mar) está a uma cota de cerca de 3.0m em relação ao nível médio das águas do mar, o que poderia implicar uma posição deste acima do actual, apesar daquele autor admitir a condução da água do mar através de um canal de 50m de comprimento, embora não o tenha encontrado.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Doggerland

Judith Curry colocou no seu blog, o primeiro de uma série de três artigos de Tony Brown. Nele se abordam as variações históricas do nível do mar, desde o Holoceno até ao tempo dos Romanos. Seguir-se-ão os períodos até ao período quente medieval, e na terceira parte, de 1700 até ao presente.

O artigo documenta muito dos aspectos que temos abordado aqui no passado, relativamente à subida dos mares. Mas têm referências para mim desconhecidas, como a de Doggerland. Apesar de saber que dantes o Reino Unido estava ligado ao Continente, desconhecia que tivesse um aspecto de cão! O artigo tem ainda referências muito interessantes a St_Michael's Mount e ao castelo de Tintagel.

Não deixem de ler na íntegra, pois é fascinante perceber como o alarmismo actual da subida dos mares é uma ninharia em termos históricos. Quando sairem os restantes dois artigos, aqui darei deles conta.

Actualização: Apesar da parecença, precipitei-me ao atribuir o nome Doggerland à face de um cão. Aparentemente deriva do holandês Doggersbank, que por sua vez deriva de "dogger", uma antiga palavra holandesa para um barco de pesca, tipicamente ao bacalhau.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Nível do mar no passado

Há uns dias saiu mais um artigo "hockey-stick", de Mann & companhia. Obviamente, os alarmistas andam alarmados com o facto de que a taxa de subida do nível dos mares está a baixar, e por isso socorrem-se de todos os truques sujos para esconder esse facto. Este artigo, aqui disponível na íntegra, diz-nos que nunca o mar subiu tão depressa nos últimos dois milénios, tendo começado a subir em 1865!?

Mas se recuarmos mais tempo, este alarmismo esfuma-se. Já me tinha referido a isso aqui e ali. Mas volto a este tema com dois dos artigos mais citados em termos da evolução histórica do nível do mar. Em Waelbroeck et al. (2002), donde retiramos a imagem ao lado, verificamos que a subida nos últimos milénios foi muito significativa. Ainda mais interessante é verificar que o nível dos mares foi mais elevado que no presente, nomeadamente há cerca de 120000 anos. Porque haveria Aquecimento Global, numa altura em que os Neanderthais e os Homo sapiens andavam provavelmente entretidos à pedrada?


Noutro artigo muito citado, Siddall et al. (2003), analisam em grande detalhe a evolução desde esse máximo há 120000 anos, visível na imagem ao lado. Aí verifica-se claramente que o mar estava então vários metros acima de onde está hoje. Igualmente interessante é a constatação de que o mar chegou a subir cerca de 2 cm por ano, desde a última glaciação, o que é uma taxa mais de 6 vezes superior à que temos hoje, e que é de cerca de 3 mm por ano...

terça-feira, 21 de junho de 2011

A armadilha de pesca de Silvalde

Se há uma coisa que os alarmistas presentes, que são sobretudo jovens, não gostam, é da disciplina de História. Porque a História nos revela realmente o que aconteceu no passado, dando-nos pistas valiosas para o presente, e a previsão do futuro. Acresce que, a maioria dos alarmistas só gosta de teclar, e não meter as mãos na massa, como o fizeram os responsáveis pela descoberta da armadilha de pesca da época romana, descoberta na praia de Silvalde, em Espinho, em 1989.

O melhor relato da descoberta que conheço online é esta digitalização da revista o Arqueólogo Português, e cuja leitura integral recomendo. Da sua leitura, uma das partes que mais me sensibilizou foi o relato do avanço do mar, em Espinho e Ovar:

Com efeito, as primeiras notícias consistentes sobre o recuo do litoral desta região remontam a meados do século XIX, de que são exemplo as invasões do mar verificadas em Ovar, em 1857, e Espinho, em 1869, regiões de baixas planuras litorais, particularmente afectadas por este fenómeno. Como refere, em 1909, Ferreira Diniz, «datam de 1869 os primeiros desastres em Espinho, que se repetiram depois, em 1874, onze anos depois em 1885, e quase consecutivamente, com pequenos intervalos de repouso até hoje».

Bem, que eu saiba as emissões de CO2 eram quase nada naqueles tempos, comparados com hoje... Será que havia influência antropogénica na altura? Parece que sim:

Sant'Anna Dionísio descreve bem a evolução do litoral na zona de Espinho: «... foi a partir de 1855, pouco depois do início das obras de Leixões, que o mar principiou a destruir a vila-praia. Durante 27 anos consecutivos o mar avançou cerca de 300 metros. Em 1912 havia desfeito algumas centenas de casas. De 1912 a 1916 a praia manteve-se e melhorou sensivelmente, concentrando o depósito arenoso.
(...)
A melhoria assinalada por este A., entre 1912 e 1916, é consequência, seguramente, da construção, iniciada em 1911, dos três primeiros esporões em Espinho (os primeiros construídos na costa oeste portuguesa), os quais melhoraram de forma efectiva, embora temporária, a situação em frente à vila (...)

Enfim, deixo acima uma imagem que documenta a planta do centro de Espinho nos finais do século XIX / inícios de século XX, e em que se encontram assinaladas as diversas fases do avanço do mar, nesses tempos idos. Em que ainda não havia Aquecimento Global antropogénico, mas uma subida maior dos níveis do mar?!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Limite: Dois graus?

O Professor Luiz Carlos Molion elaborou mais um artigo muito interessante. Intitulado "Limite: Dois Graus?", e que reproduzimos abaixo, merece uma atenção especial, sobretudo na analogia que utiliza, e que achei muito interessante, do CO2 dos refrigerantes. A sua referência ao sucesso civilizacional ao longo da História é igualmente uma visão da qual partilho, e que já é familiar dos leitores assíduos do Ecotretas:

"Temos que controlar as emissões de carbono para manter a temperatura do planeta abaixo de 2°C", é a voz corrente, frase dita até pelo Presidente Lula e por muita gente preocupada com o aquecimento global, gente essa que não sabe de onde tal frase surgiu. Sob o ponto de vista da Física do Clima, essa afirmação é absolutamente ridícula! O IPCC criou uma fórmula com base no "ajuste" ("fitting") à curva de crescimento do CO2. A fórmula é

DelF = 5,35 ln (C/Co)   Eq. [1]

onde Del F é a variação da forçante devido ao CO2 (baseada no que se crê que se sabe sobre absorção de radiação infravermelha pelo CO2), dada em W/m2; Co = 280 ppm, é a concentração de CO2 que, assume-se, tenha sido a pré-industrial; ln = logaritmo natural e C= concentração de CO2 futura. A variação de temperatura correspondente (Del T) seria dada por

Del T = const. Del F   Eq. [2]

onde a "constante" seria o parâmetro de sensibilidade climática que, para o IPCC, é const=0,75°C/W/m2, um valor muito alto! Ou seja, para cada 1 W/m2 de radiação infravermelha à superfície, provocada pelo CO2 adicional, a temperatura média global do planeta aumentaria de 0,75°C. Então, basta inverter as contas, adotar o valor de 2°C na Eq. [2], e calcular Del F = 2,656 W/m2 . Entra-se com esse valor na Eq. [1] e obtém-se a nova concentração de CO2, ou seja, C=460 ppm, um aumento de 65%, com relação ao valor pré-industrial (???) e que seria a "concentração limite, o objetivo a ser alcançado" . Como se o clima do planeta fosse tão simples quanto isso, controlado apenas pela concentração de CO2. A concentração de CO2 na atmosfera é controlada basicamente pelos oceanos (Lei de Henry) e depende da temperatura da água. Se essa aumenta, os oceanos emitem mais CO2 para a atmosfera. Esse é o mesmo processo que controla a concentração do CO2 num refrigerante. Se a temperatura do liquido aumenta, ele expulsa o CO2 que está dissolvido e “fica sem gás”. A contribuição humana , 6 bilhões de toneladas de carbono por ano (GtC/a), é muito pequena, desprezível, em face dos fluxos naturais que somam 200GtC/a, ou seja, apenas 3%, contra uma incerteza nos fluxos de 20%!

Quanto mais leio e estudo, mais me convenço que o problema é exclusivamente financeiro-economico e não climático. Não há “crise climática”. É um problema de segurança energética dos países industrializados que já não possuem uma matriz energética própria e dependem da importação, como é o caso da Inglaterra, país de onde provêm a maior parte do terrorismo climático e manipulação de dados. Certamente, o maior problema que a humanidade vai enfrentar num futuro próximo é o aumento populacional, amplificado pelo resfriamento global nos próximos 20 anos. A História mostra que, toda vez que o clima se aqueceu, as civilizações, como Amoritas, Babilônios, Sumérios, Egípcios e Romanos, progrediram. O resfriamento do clima, ao contrário, sempre causou desaparecimento ou retrocesso. Atualmente, um resfriamento global, com geadas severas, tanto antecipadas quanto tardias, seria muito ruim para a agricultura, pois acarretaria frustrações de safras e desabastecimento mundial com a população crescente. O Brasil não seria exceção. No último resfriamento, 1947-1976, o cultivo do café foi erradicado do oeste do Paraná em face das frequentes e severas geadas. É indispensável que o país se prepare para esse período ligeiramente mais frio, de 2010 a 2030.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A História repete-se!

No Espectador Interessado, via Real Science, podemos ver que sempre existiram alterações climáticas. Há ligeiramente mais de 200 anos, Thomas Jefferson escrevia:

Está a ter lugar uma alteração no clima com toda a certeza. Quer o calor quer o frio estão a moderar-se a avaliar pelo que os homens de meia-idade se recordam, e as neves estão a tornar-se menos frequentes e menos intensas.

Uns anos depois, o mesmo Jefferson anunciava:

A neve é praticamente uma coisa do passado

Vejam mais nos seus escritos. O que dirão os grandes especialistas daqui a 200 anos? Que o calor será uma coisinha do passado? Espero que não!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A História repete-se...

No blog Sol e Mudanças Climáticas abordou-se no início desta semana a importância do clima, no contexto da queda do Império Romano. Tais factos são relativamente conhecidos, sendo que o aquecimento e o arrefecimento condicionaram muito a História passada. O artigo propriamente dito, de Buntgen et al., intitula-se "2500 Years of European Climate Variability and Human Susceptibility", e saiu na Science no passado mês de Janeiro. Vários artigos na Internet abordam a forma como o calor conduziu ao desenvolvimento civilizacional, enquanto os períodos mais frios significaram um retrocesso no desenvolvimento humano...

Para um apaixonado de História, como eu, nada de novo! Já sabemos que o Planeta foi mais quente no passado, e que agora estamos a descobrir coisas que o gelo cobriu num passado mais quente. Porque o Holoceno, e sobretudo o seu Óptimo Climático, significaram o surgimento das primeiras grandes civilizações. E depois verificaram-se igualmente o Período Quente Romano e o Período Quente Medieval, com este último a contribuir, entre outros, para o surgimento de um pequeno grande país, a oeste da Europa...

Infelizmente, os calhamaços da História são hoje praticamente proscritos, pois revelam verdades bem inconvenientes para a Religião Verde! Por isso da minha biblioteca saco este pequeníssimo excerpto, do livro "Climate, history and the modern world", de H. H. Lamb, já depois de virar um troca-tintas, e que revela que não há nestes novos papers peer-reviewed, nada de novo:

Roman horticultural writers in Pliny's time, and in the previous century, drew attention to the fact that the vine and the olive could then be cultivated farther north in Italy than had been the custom in earlier centuries. This agrees with the general indications of various kinds of fossil or proxy climatic data that there was a continued tendency towards recovery of warmth in Europe through Roman times, and of increasing dryness, until about AD 400. A gradual, global warming up to AD 400 would, of course, be consistent with the evidence of rising sea level...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Yasi vs. Mahina

O ciclone Yasi será uma das armas de arremesso dos alarmistas nos próximos dias. Ao contrário do Snowpocalypse, que pouca importância parece ter recolhido... O fenómeno é anormal, naquela região, para os tempos presentes. Mas não o é para a História. Várias listas mostram-nos como os piores ciclones já não são propriamente recentes, com seis dos dez piores a ocorrerem há mais de 80 anos! Neste site, podemos observar o relato de como um ciclone ainda mais potente, o Mahina, varreu o nordeste australiano, há mais de 110 anos (realces da minha responsabilidade):

On Saturday 4 March 1899 this category 5 cyclone caused one of Australia’s worst natural disasters. Winds reached 260 kilometres an hour. A tsunami of 14.6 metres swept inland for 5 kilometres. The pearling fleet was smashed and over 400 people lost their lives. Most were Asian and Islander crew members. Only a handful of white men died. Some of the estimated 100 Aboriginal people killed were swept away at Cape Melville while assisting shipwrecked sailors. Sharks and dolphins were left hanging from trees and cliffs. Condolences came from around the world but few people today know of the disaster. Such is history’s fickle memory that forgets events at distant places and deaths of unnamed strangers.

Parte da investigação sobre este desastre natural de 1899, é relatada no vídeo abaixo. A digitalização do livro está disponível neste link, que recomendo vivamente, e donde retirei a imagem acima. Uma lista interessante sobre ciclones em Queensland, é visível neste link.

Por isso, isto é uma tempestade à antiga, sendo que no WattsupWithThat, podemos observar gráficos de parâmetros meteorológicos na ilha de Willis, que atestam as características de uma tempestade deste género. Felizmente, quando o Homem olha para as previsões meteorológicas, e se esquece do CO2, é possível previnir para remediar. E os australianos já estão vacinados... Depois, no final, logo veremos se há tubarões e golfinhos que ficaram pendurados?