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sábado, 8 de outubro de 2011

Mais mentiras da APREN

O estudo da APREN e da Roland Berger continua a dar que falar! Ontem, no Luz Ligada, ficamos a saber que este estudo foi financiado por um obscuro Fundo de Apoio à Inovação Energias Renováveis (FAI), dotado de 76 milhões de euros, 278 368 euros dos quais foram esturrados neste estudo!

Por falar em custos, a APREN como já referi, enuncia o sobrecusto numa base média, entre os anos de 2005 e 2010. Coloca o valor do sobrecusto em 329 milhões, escondendo efectivamente os valores recentes do sobrecusto com os valores mais baixos do início desse período.

Como a APREN e a Roland Berger não divulgam como chegaram a esse número, ocorreu-me que há uma forma simples de verificar quanto custará ao bolso dos Portugueses a aposta nas renováveis. Segundo o estudo, para sobrecustos das renováveis de 329M€, 228M€ e 111M€, há um sobrecusto na factura mensal média dos consumidores de 5.50€, 3.80€ e 1.90€, respectivamente. Tal traduz-se facilmente através da seguinte fórmula:

SOBRECUSTO_FACTURA =(SOBRECUSTO_RENOVÁVEIS x 0.0165) + 0.0579

Reparem que a fórmula está efectuada para o fornecimento dos valores de SOBRECUSTO_RENOVÁVEIS em milhões de euros/ano, enquanto o SOBRECUSTO_FACTURA resulta em euros/mês. Assim sendo, podemos ver o que esperar a mais na factura mensal da electricidade, baseado em dados recolhidos durante este ano de 2011:

AutorMontante
Sobrecusto
Montante
Factura
ERSE - Custos de política energética, ambiental ou de interesse económico geral 20112406 M€39.76 €
ERSE - Sobrecusto PRE 20111214 M€20.09 €
ERSE - Sobrecusto PRE 2010805 M€13.34 €
Ecotretas - Previsão Sobrecusto Renováveis 2011580 M€9.63 €
EDP - Sobrecusto Renováveis 2011509 M€8.46 €
APREN - Económico329 M€5.50 €
APREN - Ajustado228 M€3.80 €
APREN - Actual111 M€1.90 €

Os valores das primeiras três linhas, da ERSE, incluem os sobrecustos da PRE, que inclui sobrecustos em vertentes para além das renováveis, incluindo nomeadamente a cogeração e CMEC, entre outros. É confrangedor olhar para a minha factura eléctrica de Setembro e verificar que a diferença entre a estimativa do CIEG e o valor que efectivamente paguei, é inferior a 80 cêntimos!!!

As restantes linhas, que incluem a previsão do Ecotretas, estão nas linhas seguintes. Elas incluem apenas o sobrecusto das eólicas e solar. O quadro dá facilmente para perceber como a APREN e a Roland Berger nos querem enganar! Como se sentirão os participantes do focus-group, quando souberem que vão pagar quase 10 euros por mês para as renováveis? É que segundo a própria APREN e Roland Berger, as conclusões são claras (realces da minha responsabilidade):

As conclusões do Focus Group revelaram que o consumidor português é favorável e apoia a aposta do País nas energias renováveis, sentindo um elevado orgulho nesta opção e mostrando disponibilidade para pagar um custo adicional de 2 €/mês para financiar estas fontes de energia, desde que seja de uma forma clara e transparente.

domingo, 2 de outubro de 2011

Desmontando mais o estudo da APREN

O estudo da APREN, efectuado pela Roland Berger, a que nos referimos inicialmente aqui, e no qual metemos o primeiro ferro aqui, tem muitos mais motivos de crítica. O estudo soma valores que lhe são convenientes, e subtrai outros, fazendo o inverso com a concorrência. E esconde muitos outros.

O custo das linhas de alta tensão é um desses exemplos. Elas tiveram que ser implementadas pela REN, para retirar do topo dos montes essa energia verde, poluindo ainda mais as bonitas paisagens das serras portuguesas. Mas para os habitantes locais, alguns deles mesmo sem electricidade, os benefícios foram apenas a poluição visual e sonora... Quem pagou isso? Foram os promotores eólicos? Não! Foram os contribuintes e consumidores... A APREN descontou esse custo? Pois claro que não!

Quanto custam essas linhas? A REN, no seu Plano de Investimentos 2006-2011, descrevia a tarefa de forma simples (todos os realces da minha responsabilidade):

A produção eólica é aquela que irá provocar maior impacto na RNT, não só atendendo ao seu significativo montante absoluto, mas também porque a maior parte do seu potencial se situa em regiões montanhosas do interior com consumos pouco significativos e caracterizadas por redes desenvolvidas para os meios de produção até então existentes. Por conseguinte, está-se perante um alargamento de excesso de produção que é necessário transportar para os centros de consumo.

E quanto é que custa ligar um Parque eolicozinho à rede? São segredos bem guardados, porque não é suposto o Zé Povinho saber. Comecei por um exemplo do Norte do País, daqueles bem perto das grandes cidades, como advoga a APREN e a Roland Berger. No Estudo de Impacte Ambiental da Linha Parque Eólico Alto Minho I-Pedralva a 150kV, podemos ver que os 52 Km de extensão da linha de Alta Tensão, com 125 postes, custaria cerca de 8 milhões de euros, só para chegar à subestação mais próxima! Subestação essa também nova, por certamente mais uns milhões... E esta é apenas uma linha para servir um dos muitos parques eólicos deste País!

Não foi preciso procurar muito para obter outras verdades nesta história deprimente. Da mesma REN, numa apresentação na Argentina, temos muitas coisas engraçadas no domínio eólico. Para este post destaco o seguinte extracto, que exemplifica como foi necessário esturricar ainda mais dinheiro nisto das eólicas:

Os novos centros produtores eólicos e hídricos previstos situam-se, na sua larga maioria, no interior norte e centro do País, em zonas montanhosas onde os consumos eléctricos são pouco significativos e onde a rede de transporte de electricidade não se encontra muito desenvolvida. Tornava-se pois imperativo escoar os elevados montantes das zonas interiores excedentárias em geração, para as zonas de maior consumo situadas no litoral. A rede de transporte existente não se mostrava minimamente adequada para fazer face às novas exigências pelo que foi necessário estabelecer uma estratégia para o seu reforço.

Mais abaixo, no mesmo documento, mais algum detalhe:

As zonas interiores do País onde se situa o potencial eólico tinham uma fraca estrutura de rede de MAT. Os únicos níveis de tensão aí disponíveis eram os 150 kV ou os 220 kV, não se mostrando suficientes para receber e escoar os novos montantes de potência. A decisão de reforço da rede ou se centrava no reforço destes níveis de tensão ou na opção por um escalão de tensão mais elevado. A escolha recaiu sobre esta última hipótese, por ser mais flexível e potenciada para fazer face às incertezas ainda existentes de localização e de montantes reais a serem instalados.

Ainda não estão convencidos da falsidade dos argumentos da APREN e Roland Berger? Pode-se argumentar que as barragens também estão longe, e isso é verdade! E as outras formas de energia? As restantes estão genericamente próximas dos grandes consumidores. No primeiro documento da REN acima, a resposta é clara, neste caso para o exemplo da cogeração:

Para além destes factores é ainda de assinalar que, na larga maioria das vezes, a cogeração se situa em zonas urbanas e/ou industrializadas onde a RNT tem, normalmente, uma estrutura bastante desenvolvida e, por conseguinte, com menores dificuldades de recepção por parte das redes de transporte e distribuição.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

APREN dá chouriço; nós damos o porco

A APREN colocou hoje cá fora o seu balanço das renováveis de 2011, e que ecoou logo pelos Media... A APREN diz que as renováveis pouparam €721 milhões em importação de combustíveis. Como é habitual, não explicam como chegaram a estas contas...

Mas as contas inversas são fáceis de fazer! É só pegar nos dados da REN e combiná-los com os preços dados pela ERSE. Estes últimos são os valores médios do ano de 2011 em Novembro, pelo que certamente muito próximos dos valores finais do ano.

Começando pela eólica, podemos verificar que em 2011 foram produzidos 9005 GWh, o que a um preço médio da tarifa feed-in de 94.5 € por MWH, dá logo 850 milhões de euros! Na energia solar fotovoltaica foram produzidos 261 GWh, que multiplicados por 342 € por cada MWh, dá mais 89 milhões de euros. Na hídrica PRE foram mais 1021 GWh, que a 91.3 €/MWh representam mais 93 milhões de euros. O resto da PRE renovável é mais difícil de catalogar, mas se conseiderarmos que existiram 12853 GWh de PRE renovável, e descontando a eólica, solar e hídrica, ficamos ainda com 2566 GWh para contar. Se considerarmos o valor de 95 €/MWh dados para a cogeração renovável, então soma-se mais 244 milhões de euros.

Ou seja, toda a PRE somadinha dá a módica quantia de 1277 milhões de euros de custos. E a APREN diz-nos que poupamos 721 milhões??? Pois, eles dão um chouriço, e nós damos-lhes o porco... Na verdade, estas contas rápidas demonstram um sobrecusto das renováveis de cerca de 556 milhões de euros, um valor que se aproxima do valor que o Ecotretas havia previsto para 2011, superando por uma margem maior a previsão que a EDP havia efectuado. Todavia, como a maior parte da energia eólica é produzida de madrugada, quando o custo é menor, o sobrecusto real tenderá a aproximar-se mais do valor que havia previsto em Outubro...

Notem-se mais dois aspectos interessantes: primeiro, que o custo da tarifa feed-in das eólicas subiu em 2011, ao contrário da visão dos seus defensores, que advogavam que a energia eólica estava cada vez mais barata; segundo, que a APREN definitivamente não sabe fazer bem as contas - vejam as diferenças das mesmas percentagens, quando comparadas com a análise da Quercus (eg. 17.6% vs. 17.8%, 25.1% vs. 25.4%)...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ferros curtos na APREN

A APREN e a Roland Berger devem admitir que ninguém em Portugal sabe fazer contas, e que estão por isso à vontade para irem vendendo a banha da cobra pelos números que muito bem entenderem. Vem isto obviamente a propósito do estudo que elaboraram sobre os custos e benefícios da electricidade de origem renovável. Apliquei umas bandarilhas e ferros aqui e acolá. Agora vamos a uns curtos...

A APREN não gosta do termo "sobrecusto" e por isso substituiu-o por "diferencial de custos". O sobrecusto anual que a APREN calcula entre 2005 e 2010 (que depois tenta reduzir a um terço) é de 329 milhões de euros. Quando vi este valor, só me apetecia rir, até porque sabemos que os sobrecustos têm vindo a subir exponencialmente, pelo que o valor médio não tem hoje qualquer significado! O valor verdadeiro do ano passado foi efectivamente cerca do dobro! Vai daí, meti mãos à obra para calcular rapidamente os valores provisórios dos primeiros meses deste ano.

Para isso manteve-se como referência o valor de 95.4 €/MWh para a energia eólica, que tinha dado na posta das bandarilhas, confirmados por este documento ainda mais recente da ERSE, e de 340.6 €/MWh para a energia solar. Os valores de produção mensal de energia foram obtidos a partir desta página da REN, enquanto os preços médios foram retirados deste documento da OMEL (primeira tabela da página 39). Para os meses deste ano até Agosto, os valores são:

MêsCusto OMEL
(€/MWh)
Produção Eólica
(GWh)
Produção Solar
(GWh)
Sobrecusto Eólico
(Euros)
Sobrecusto Solar
(Euros)
Janeiro41.2692010498088002993400
Fevereiro47.9180915384194104390350
Março47.3287518420700005279040
Abril46.8570222340821006462500
Maio49.0246426215203207581080
Junho50.6466729298549208408840
Julho51.1588630392055008683500
Agosto53.6058126242858007462000
Total:
590417627924685051260710

Resumindo, nos primeiros oito meses do ano, o sobrecusto com as eólicas e o solar foi de cerca de 330 milhões de euros, curiosamente já ligeiramente superior ao valor da APREN e Roland Berger. Reparem também que o valor do solar já ultrapassou o valor de 2010, o que é função da introdução de cada vez mais potência instalada nesta energia confrangedoramente ineficiente!

Na verdade, o valor que avançamos é certamente o limite inferior do sobrecusto, pois como já referimos diversas vezes, e notavelmente nos gráficos deste post, a maior parte da energia eólica produzida é-o em momentos de baixo custo. Assim sendo, o valor real é certamente bastante superior, como a ERSE certamente confirmará em meados deste mês, e o qual calcularemos de forma exacta no início de 2012.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ferros na APREN

É impressionante o pânico que se sente nas renováveis! Depois do exemplo que referi há quase duas semanas, seguiu-se a APREN, que mais não fez do que tentar defender a sua dama. Deu para perceber pelo que foi revelado pela Imprensa, que mais tretas vinham aí!

Não me enganei! Vários leitores comunicaram-me que a APREN tinha disponibilizado o estudo Sumário Executivo. Versão já corrigida, como se pode ver pelo URL... Depois de o ler na íntegra, a vontade era a de vomitar... Seja pelas mentiras, meias-verdades, ou omissões! Quase tudo já foi rebatido aqui no blog, mas há novidades! Como a das eólicas serem boas porque evitam perdas na rede de transporte (tenho que mentalmente me recordar para no futuro malhar neste argumento)!

Das muitas verdades que o estudo foge, como o Diabo foge da cruz, a maior é obviamente a das tarifas feed-in. Começam logo por varrer o problema para debaixo do tapete, no início do documento, e se repararem, no resto do documento só é referido, de forma insignificante, mais duas vezes:

As tarifas feed-in (FIT) da PRE-FER em Portugal são competitivas em comparação com as dos países europeus analisados neste Estudo, nomeadamente Espanha, Alemanha, Itália e França. Em 2010, o valor médio das tarifas da PRE-FER em Portugal situou-se 15% abaixo da média dos países Europeus e a actual FIT aplicada à energia eólica, para os projectos instalados a partir de 2009 (70 €/MWh), apresenta-se igualmente como a mais baixa.

Se olharmos para as actuais tarifas feed-in, podemos ver que dos quatro países referenciados, apenas a Itália está suficientemente longe. Mas, o problema como sabemos, nem sequer é das tarifas para os projectos novos, que continuam todavia claramente acima do valor de mercado. O problema é a herança do querido Líder! Que associou por muitos e longos anos tarifas elevadíssimas ao pioneirismo português na matéria. Vejam como as tarifas eram há quatro anos atrás, descritas neste estudo europeu:


Cliquem para ver melhor e confirmar que estavamos claramente no pelotão da frente da roubalheira eólica, e novamente à frente de Espanha, Alemanha e França! Por isso, quando a APREN nos acena com os 70 €/MWh, sabe que nos está a esconder a herança do passado. E não é preciso ir muito longe, para provar não só que o valor não está a descer, como está mesmo a subir!

No site da ERSE podemos ver a mais recente Informação Sobre Produção em Regime Especial, que incorpora os dados actualizados a Julho de 2011. Na página 12 do PDF podemos constatar que o custo médio da energia eólica, para este ano era de 95.4 €/MWh em Julho, o valor mais elevado de sempre, conforme podem ver na página 5 do mesmo documento! Pior é ainda constatar que este valor está a subir, como se pode ver pelo valor de 93.8 €/MWh para Abril e 94.0 €/MWh para Maio...

Enfim, é mais um ferro neste touro das energias alternativas em Portugal, e das eólicas em particular. Bruno Camona, na Luz Ligada, já havia ontem espetado um ferro. A estocada segue dentro de momentos! Eh touro!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Onde pára o estudo da APREN?

Logo pela manhã li o artigo do Público, que aqui se mostra ao lado (clicar para ler melhor). Obviamente, um estudo "encomendado", como o Espectador interessado referenciava ao início da tarde... Ainda esperei pelo final da tarde, depois da apresentação pública do estudo, e do respectivo Cocktail, pago já sabem por quem, mas nada. No site da APREN nada feito, no da Roland Berger idem, porque como é fácil perceber, as contas só podem estar engatadas...

É claro que no artigo da manhã do alarmista Público, ao menos podemos ver a ponta do iceberg. É claro que as contas foram ajustadas, como as seguintes citações o demonstram (realces da minha responsabilidade):

O que a nova análise faz é calcular de forma diferente alguns benefícios e custos associados à produção eléctrica, com base numa “visão económica ajustada”. Em primeiro lugar, associa à factura das grandes hídricas e das centrais térmicas várias despesas que não têm sido contabilizadas como tal por estarem desligadas do mercado grossista de electricidade, mas que se refl ectem na factura paga pelos portugueses. Neste primeiro “bolo” estão as rendas pagas aos proprietários dos terrenos das centrais e as licenças de CO2 ligadas à emissão de gases poluentes pelas térmicas, mas sobretudo a remuneração garantida que é paga aos produtores em regime ordinário.
(...)
Ora, a nova avaliação apresentada pela Apren subtrai às despesas com as renováveis o pagamento obrigatório aos municípios de uma renda (2,5% da facturação) pelas centrais eólicas, uma vez que os benefi ciários são as autarquias. Calcula também o impacto positivo das perdas de energia que se evitam no transporte de energia renovável através da rede, pois a distância percorrida é menor. Em terceiro lugar, contabiliza o chamado “efeito de ordem de mérito”: a redução do preço da electricidade no mercado, devido ao aumento da oferta de energia que vem de fora, com origem na produção renovável. E, por último, as contrapartidas que foram pagas pelos produtores ao Estado, nos últimos concursos de atribuição de potência.

Ou seja, cheira-me que vou ter que re-apreender como se soma e subtrai! Mas o que me cheira mais forte é que este estudo não veja a luz do dia, e se fique pelos chavões. Se algum dos leitores lhe deitar a mão, não deixe de mo encaminhar...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Bandarilhas nas eólicas em Espanha

Estou consciente que os nossos vizinhos espanhóis têm um problema muito mais duro de roer, na vertente da energia, do que nós cá em Portugal. A herança de Zapatero é um abismo que ainda não se avista, mas que não tardará a ensombrar-nos! Um leitor atento chamou-nos a atenção para a razia que grassa aqui ao lado, nas tarifas das renováveis, e das eólicas em particular.

A proposta do Ministério de Indústria é radical: em vez de receberem subsídios durante 20 anos, baixa para 12 anos. O preço por KW/h baixa para 5.50 cêntimos, baixando igualmente as horas de funcionamento dos parques de 2100 horas para 1500 horas. O corte nos subsídios é estimado em 40%! A banca assim deixa de financiar, dado que baixam as elevadíssimas taxas internas de rentabilidade...

A Asociación Empresarial Eólica, uma espécie de APREN de nuestros hermanos, está à nora! Dispara em todas as direcções... Que não se vão cumprir os objectivos anteriores, que previam 27.860 MW para 2015. Que se instalarão apenas 500 dos 4200 MW previstos entre 2013 e 2015. Que se perdem 12.680 milhões de euros em investimento. Que perderão 40% da chucha!

Por lá, o Governo de Zapatero ainda presta um último serviço, com estas bandarilhas. O Rajoy dará a estocada final. Por cá, ainda esta semana o secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, dizia no Parlamento que "os CMEC são contratos que estão blindados". Nas renováveis nem se atreve a tocar... Ele terá muito a apreender com os socialistas espanhóis, mas mais ainda com o novo governo que se apresta para aprumar os nossos vizinhos do lado!

terça-feira, 8 de maio de 2012

Facturas de Betão

A TVI, que tem dado um contributo muito importante para expor o que vai mal no domínio de ambiente (ver eg. o "Estado do Crime" e a "Máfia Lusitana"), superou-se ontem com o Repórter TVI, e a reportagem "Facturas de Betão". A reportagem aborda as contas do PNBEPH, mas não é por isso que se destaca das restantes reportagens que já vi na televisão portuguesa.

Carlos Enes, o repórter de serviço, fez o que um bom jornalista deve fazer: colocou as perguntas difíceis! E foi ver os entrevistados jogar na retranca! Particularmente impressionante foi a forma como Carlos Enes conseguiu encostar Nuno Ribeiro da Silva às cordas, sendo que António Sá da Costa foi mesmo vencido por KO.

Os leitores do Ecotretas sabem que eu sou a favor das barragens. Agora que temos excesso de eólicas, precisamos delas. Apesar dos problemas que têm, são uma melhor opção do que aventuras como o nuclear, e ainda servem para outros fins. O que há agora a fazer é envergonhar estes parasitas, e obrigar especialmente o sector da energia eólica a ser eficiente e a concorrer directamente no mercado. Eles estão a sentir a pressão e prova disso é a publicidade da APREN que anda no ar; afinal, eles agora sentem que a mama está a acabar, e esta reportagem de Carlos Enes muito contribui para isso!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Negócios de uns, subidas de preços de outros...

Hoje ouvi a parte inicial do Mais Cedo ou Mais Tarde da TSF, com o presidente da APREN a tentar justificar o seu investimento em painéis fotovoltaicos. A conversa foi do género: Os painéis fotovoltaicos são insuficientes para gerar energia suficiente para a casa dele, mesmo em termos médios. A utilização de acumuladores/baterias também não é solução. Todavia, os novos apoios no âmbito da micro-geração permitir-lhe-ão pagar a sua actual factura de energia eléctrica e ainda receber cerca de 1000 euros ao final do ano. Conclusão: não é o negócio da vida dele, mas...

Para além dos múltiplos apoios, o preço do kWh produzido na micro-geração será cerca de seis vezes superior ao consumido. Quem disse que o petróleo está caro? Ou seja, todos estaremos a financiar esses investimentos, para que alguns possam fazer uns negociozinhos...

www.edp.pt/EDPI/Internet/PT/Group/Clients/FAQs/microgen/microgen_faq.htm
http://www2.inescporto.pt/use/noticias-eventos/nos-na-imprensa/microgeracao-vai-criar-mercado-de-mil-milhoes.html

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Erro trágico de António Costa Silva

Vários leitores alertaram-me para uma entrevista de António Costa Silva, presidente executivo da Partex Oil and Gas, petrolífera da Fundação Calouste Gulbenkian, ontem no Público, e que teve referência na capa do jornal mais alarmista de Portugal. O António foi já referenciado aqui no passado, e enquanto fala daquilo que sabe, mostra-se uma pessoa lúcida. Volta à carga com o desperdício que constitui o não aproveitamento do gás natural do Algarve, com a prospecção que está a ser feita ao largo de Peniche, e fala naturalmente do gás shale que está a revolucionar países como os Estados Unidos e a China, mas que tarda em chegar à Europa, e a Portugal, que misteriosamente ele nem sequer referencia, quando se sabe das nossas possibilidades de extracção desse gás.

O problema está quando Costa Silva se mete por aquilo que não domina. As duas alarmistas jornalistas do Público destacam para título do artigo a seguinte frase do presidente da Partex Oil and Gas: "É um erro trágico se o país agora destruir o cluster das energias renováveis". O erro trágico de António Costa Silva é que parece não saber fazer as contas: diz que as renováveis representam apenas 15% dos CMECs, mas esse é um valor retirado das mentiras do estudo da APREN. Mas todos sabemos que a miríade de custos de suporte das eólicas, que incluem pelo menos a garantia de potência e o custo das novas barragens, se ficam a dever ao excesso que temos de eólicas! Até o Mexia reconhece que o valor é pelo menos de 21%, pelo que sabemos que é muito maior, quando se somam todas as parcelas que lhe são imputáveis.

O António fala ainda de muitas meias verdades, e pelo que diz percebe-se que as referências a questões como as dos enormes subsídios dos combustíveis em determinados países, carros eléctricos, cimeiras do Clima, subidas dos mares, etc., são de uma pessoa que apenas debita soundbytes... Neste último aspecto revela-se a incultura científica deste personagem. Interessa perguntar-lhe quando pensa ele que o que ele diz vai acontecer (realces da minha responsabilidade)?

A maioria dos cientistas é clara quanto ao que se está a passar com o clima. Não podemos esquecer que 1/3 da população mundial vive entre o nível do mar e os nove metros do degelo da Gronelândia e da Antártida são suficientes para fazer subir o mar em seis metros. E depois na altura, fazemos o quê? Arranjamos uma jangada para salvar as coisas?

Quando os estudos dos cientistas que ele refere afirmam que a subida dos mares será no máximo de 59 cm este século, e quando se sabe que a subida está a desacelerar, e que os cientistas andam entretidos a esconder esse facto, percebe-se logo quanto valem as afirmações deste António...

Entretanto, verdadeiramente mais interessante foi a entrevista de Henrique Gomes ao Jornal de Negócios. Não está integralmente online, mas o resumo disponível não deixa margens para dúvidas:

Henrique Gomes quer cortar ganhos dos produtores eléctricos. Negociar "é uma via". Mas Estado pode tomar "uma decisão unilateral e soberana".

O secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, faz um balanço "muito positivo" dos primeiros seis meses em funções. Em entrevista ao Negócios, indica que a privatização da EDP não impedirá o Governo de tomar medidas para cortar "margens excessivas" no sector.

No resto do artigo, Henrique Gomes, faz a previsão do terramoto energético que aí vem. A energia ao serviço da economia e famílias, não pode ser como actualmente, em que a energia está por exemplo a prejudicar a indústria exportadora.... Mesmo contra a imposição dos produtores, parece que o Estado vai impor o interesse público, mesmo que sejam precisas decisões unilaterais e soberanas. E ele promete abalo até ao final do mês!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A bebedeira dos perus portugueses

Na mesma edição de ontem do Expresso, em que surgem os equívocos de Joanaz de Melo, há outro artigo verdadeiramente lamentável. É de Luísa Schmidt, uma socióloga do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e que tem tudo para passar a ser outra presença permanente do blog... No artigo do Joanaz levamos com a Terra Plana; no artigo da Luísa, levamos como o peru do Natal:

O debate sobre energia em Portugal lembra o peru do Natal nos tempos em que eram comprados vivos e embriagados para aceitarem docemente a degola. Hoje, no debate energético, a 'aguardente do peru' é o espetáculo da chicana. E, claro, quanto menor o conhecimento, maior o nível de manipulação.

É mais um artigo que começa bem! Mas, já terá ocorrido à Luísa que são os ecologistas os que têm menor conhecimento, e os que nos andam a manipular? Veja-se como a manipulação começa imediatamente a seguir:

A própria fatura da eletricidade já é um exemplo de péssima informação. Percebe-se mal o que se paga e menos ainda as razões do que se paga.

Na conta da eletricidade, entre outras coisas, temos que pagar: o serviço de carga que nos chega a casa (transporte e distribuição); a segurança de haver sempre alternativa de abastecimento (é como ter um exército em estado de prontidão); e ainda a preparação do futuro para que um dia mais tarde possamos ter eletricidade mais saudável, mais constante e, se possível, mais barata.

Então, a Luísa quer deixar de pagar o transporte da electricidade do topo dos montes, das ventoinhas eólicas, até onde o consumo se efectua? É que os sociólogos não fazem certamente a menor ideia por onde passa a electricidade verde. E nem é preciso fazer um boneco para perceber-se que a energia que é gerada no topo dos montes remotos, a horas inconvenientes, tem que ser transportada para as barragens reversíveis, onde grande parte da energia se perde... E essas barragens ficam igualmente fora de mão (Venda Nova II, Aguieira e Alqueva), pelo que transportá-la depois para as indústrias e grandes cidades é mais uma carga de trabalhos. Mas já sabemos que a Matemática e a Física não são o forte de qualquer sociólogo! Mas a Luísa parece não prezar a energia que consome lá em casa, mas a ideia de um exército em estado de prontidão agrada-me! É que é efectivamente um desperdício ter investido em eólicas, para depois se ter que manter toda a outra infra-estrutura a funcionar, de forma ineficiente e permanente, porque realmente o vento vai e vem quando lhe apetece! Mas o mais grave no raciocínio da Luísa é realmente admitir que a energia eólica possa ser no futuro mais barata; é uma fé ainda mais estupidificante que a fé da nossa Ministra da Agricultura! Mas eu quero energia mais barata, JÁ!, não daqui a 15 ou 20 anos...

Vem tudo isto a propósito da algazarra à volta dos chamados 'subsídios às energias renováveis'. Como se eles fossem uma simples benesse e não uma necessidade indispensável e inevitável.

A questão está de tal modo assanhada que convém ponderar alguns dados adquiridos. 1. Haja o que houver, pelo menos para o próximo meio século, teremos sempre de recorrer a um mix de fontes de energia. 2. Haja o que houver, convém que esse mix tenha cada vez menos fontes de energia vulneráveis, perigosas, poluentes e caríssimas. Conseguir isto prepara-se com muita antecedência e implica decidir gastar agora para obter mais tarde bons resultados. É como pagar os estudos aos filhos.

A verborreia sociológica dá nisto: ela própria consegue definir e enterrar a energia eólica! A energia eólica é vulnerável! A energia eólica é perigosa! A energia eólica polui, de diversas maneiras! E são evidentemente caríssimas!!! A analogia com a educação é perfeita, e revela o estado sociológico do nosso ensino: os nossos estudantes são efectivamente uma geração perdida...

Portugal gasta milhões a comprar combustíveis fósseis. Dependemos deles em 76% e, pelo que se vê, não poderemos pagar contas destas a muito curto prazo. Por isso, o país iniciou em 2000 uma grande mudança e apostou nas energias renováveis. Numa década criou-se um cluster reconhecido internacionalmente como modelar e que, só em 2011, nos poupou 824 milhões de euros em combustíveis fósseis e emissões.

Este problema da Balança Comercial abordei-o recentemente. As contas que aí refiro, se forem lidas pela Luísa, causar-lhe-ão certamente um curto-circuito cerebral... Quanto aos 824 milhões, não faço a menor ideia como foram erradamente calculados, mas são já uma inflação dos 721 milhões que a APREN já mencionava no início do ano. Como é sabido, estes alarmistas começam por um valor, e vão inflacionando, inflacionando, até se tornarem números verdadeiramente estúpidos!

Ora, agora que se construiu o navio, que ele foi lançado ao mar e iniciou a viagem, eis que chegam os 'tubarões' a pretender afundá-lo. Alegam que o contribuinte anda a ser roubado na conta da luz ao ser obrigado a pagar um subsídio às renováveis. Como se não soubessem muitíssimo bem que também o carvão, o petróleo, o gás ou o nuclear precisaram dele, porque o subsídio é uma incubadora de futuro para qualquer mudança de paradigma energético. Se os custos das faturas domésticas subiram recentemente de forma vertiginosa, não foi por causa dos 4,5% de apoio às renováveis, mas sobretudo porque o IVA passou de 6% para 23% e porque o preço dos combustíveis para as termoelétricas disparou.

Chama-se a isto um debate? Seremos todos perus do Natal?

Agora que o navio foi lançado ao mar, quero ver o que vai acontecer aos ratos a bordo. Será que vão saltar? Ou será que se vão afundar com o navio? Mas tubarões não afundam navios. O Titanic afundou-se por excesso de confiança do comandante e assistentes; o Costa Concordia por razões semelhantes... O navio da Luísa está a afundar-se pelas mesmas razões, e Luísa pressente-o. E o problema da Luísa, e dos ecologistas, é que os Portugueses estão a acordar da ressaca da bebedeira que nos enfiaram pelas goelas abaixo!

Afinal o debate é capaz de ser sobre outras coisas bem diferentes da bolsa dos consumidores. Mas, seja o que for, não pode ser decidido pelos capitães dos grandes interesses. A diferença entre as democracias que funcionam e as que só fingem passa por decisões como estas: a tão liberal Inglaterra pôs em discussão pública quatro cenários de mix energético para serem debatidos durante um ano. Por cá, o Governo, dando boleia a um suspeito ânimo antirrenováveis, aprovou medidas e leis para cortar as pernas ao sector, curto-circuitando a sua dinâmica e arredando o assunto da consideração pública.

A questão da energia e dos seus preços é sem dúvida complexa e exigente, tanto mais que os preços irão aumentar com a liberalização do mercado. Mas agir assim não é esclarecer; é apenas embriagar o peru...

Ora aí está! Inglaterra é um bom exemplo, mas quando é que se pôs em discussão pública a nossa aposta nas renováveis? Quando é que as contas nos foram bem explicadas, nomeadamente durante quanto tempo é que iríamos pagar da electricidade mais cara da Europa? Mas ainda bem que se cortou em Portugal as pernas a este sector que enterrou este País. Enfim, agora o peru, todos nós, a acordar da ressaca da aguardente verde, talvez ainda sobrevivamos sem nos cortarem a cabeça. Quanto mais depressa acabarmos com as tarifas feed-in, mais rapidamente voltaremos a fazer glugluglu...